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quinta-feira, 16 de junho de 2016
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Natal de Quem?
Natal de Quem?
Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas. - Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho! - Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei... Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza. Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente! Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis. E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração. A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto! Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!!!
João Coelho dos Santos, in Lágrima do Mar - 1996
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas. - Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho! - Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei... Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza. Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente! Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis. E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu? O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração. A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto! Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!!!
João Coelho dos Santos, in Lágrima do Mar - 1996
quarta-feira, 13 de maio de 2015
TEMPO CONTADO: A arte de existir
TEMPO CONTADO: A arte de existir
A arte de existir, se arte se lhe pode chamar, está na paciência de sofrer o desânimo, no ver semicerrando os olhos, no respirar fundo e depois, lentamente, deixar que com o sopro escape também a náusea e a desilusão.
Porque tudo é teatro, adereços, bastidores, maquilhagem. São tantos os actores como os pontos que lhes sussurram as palavras a dizer, as atitudes a tomar, lhes mostram o caminho do proveito e os escolhos em que se tropeça.
Actores, pontos, os que tocam a música, vão todos em fila, que é o mais seguro, debitando a monótona ladainha da aceitação, confortados por igualdades e direitos que imaginam, por certezas que lhes garantem tão seguras como o nascer do sol.
O remédio é entrar no cortejo e ir também, cantar com eles, bater palmas, mostrar entusiasmo quando o arauto anunciar a passagem do rei e o esplendor do seu manto.
J. Rentes de Carvalho
A arte de existir, se arte se lhe pode chamar, está na paciência de sofrer o desânimo, no ver semicerrando os olhos, no respirar fundo e depois, lentamente, deixar que com o sopro escape também a náusea e a desilusão.
Porque tudo é teatro, adereços, bastidores, maquilhagem. São tantos os actores como os pontos que lhes sussurram as palavras a dizer, as atitudes a tomar, lhes mostram o caminho do proveito e os escolhos em que se tropeça.
Actores, pontos, os que tocam a música, vão todos em fila, que é o mais seguro, debitando a monótona ladainha da aceitação, confortados por igualdades e direitos que imaginam, por certezas que lhes garantem tão seguras como o nascer do sol.
O remédio é entrar no cortejo e ir também, cantar com eles, bater palmas, mostrar entusiasmo quando o arauto anunciar a passagem do rei e o esplendor do seu manto.
J. Rentes de Carvalho
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Sobre se Ele Há ou Não
Poema
– Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar nas realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Fernando Pessoa ortónimo
Mensagem
quinta-feira, 12 de março de 2015
A CIDADE DO SOL - Livro
Romance Metapsíquico
Pelo Major Sarmento de Beires
***
« … o maravilhoso, chamado ao tribunal da fraca
razão humana, dá de si um encadeamento de absurdos. Nós não sabemos nada.
Vivemos e morremos materialmente. É necessário que apareçam estes meteoros de
deslumbrante clarão, para desviarmos os olhos das mesquinharias que nos
rodeiam, e acreditarmos que há grandes segredos, acima do entendimento do homem
ordinário…»
In Mysterios de Lisbôa, livro IV, de
Camilo Castelo Branco.
***
«A nossa época é horrível porque já não
cremos, - e não cremos ainda».
In
Memorias, I volume, de Raul Brandão.
INTRODUÇÃO
Eclipsadas pela
corrupção da época as aspirações nobres do espírito humano, surgem como ídolos
que a multidão adora, o bezerro de oiro, o bastão de comando, a figura sádica
da volúpia.
O egoísmo avassala
as almas. A felicidade concretiza-se para a maioria num montão de libras, num
lugar de chefe não importa saber de quê, no deboche dum prazer que se compra.
A justiça deixou
de ser uma virgem de olhos vendados, para ser a megera hedionda, sem
escrúpulos, sem noção das proporções, que, vencida pelo temor ou pela coacção,
deixa o crime impune, ou decide a favor do mais poderoso.
Anda a hipocrisia
à solta. A Humanidade perdeu a consciência da sua própria consciência.
E uma rajada de
loucura e ódio revolve tempestuosamente o mar de lama em que a sociedade se
submerge.
No entanto, se,
racionalmente, não devemos admitir o dogma da bondade natural do ser humano,
não devemos também, logicamente, considerar o ser humano como fundamentalmente
mau.
Entre o fervilhar
das paixões e dos interesses, que asfixiam as aspirações de justiça e
fraternidade nos nossos dias, há fachos de luz que bruxuleiam através da
atmosfera densa, há movimentos de opinião sinceros e puros, frementes de
energia, que anseiam por dar combate à degradação dos costumes.
Não é Portugal o
único país em que o mal, em todos os seus aspectos, vem destruindo a harmonia
social.
A degradação é
geral. Por toda a parte se verificam os mesmos pródromos alarmantes: a política
de corrupção, a imprensa vendida, a bacanal infrene, a miséria esquecida, o
negócio ganancioso.
Mas é Portugal o
país onde mais desconsoladoramente se verifica a inércia da massa perante os
factos. A nação portuguesa, velha matrona indiferente, dormita impassível,
cruzados os braços sobre o abdómen, à espera, talvez, dum D. Sebastião
salvador.
Não se ouve um
grito, porque se algum grito soa, a força espúria dos interesses maquiavélicos
afoga-o no silêncio da grande imprensa, nos insultos gratuitos dos porta-vozes
de baixa política, na insinuação pérfida, nas acusações sem base dos ambiciosos
do negócio escuro.
E assim se vai
vivendo…
Entre as causas do
grande desvario, afigura-se-nos terem lugar primacial certas vulgarizações
baratas das doutrinas materialistas.
Não confundamos,
porém, materialismo com racionalismo.
O último impõe-se
nesta época em que, a par da tragédia social, e talvez devido à expansão
daquele materialismo, o cérebro humano tem concebido algumas das mais
formidáveis maravilhas de toda a história.
A própria
definição de racionalismo, - sistema fundado sobre a razão, oposto aos sistemas
que se baseiam na revelação, - deveria bastar para que toda a humanidade
consciente o perfilhasse.
Descartes,
proclamando igual em todo o ser humano, a faculdade de discernir o verdadeiro
do falso, foi um racionalista.
Aliás o
materialismo, esse sistema que reduziu todo o universo à unidade da matéria,
tornando-a consequentemente o fulcro único da nossa actividade, parece-nos ser,
à própria luz do racionalismo, uma negação da inteira realidade.
Como a grande
massa não analisa a argumentação nem aprofunda as teorias, o materialismo
entrou no espírito das multidões sob uma forma simplista, destruindo todos esses
princípios que estão para além da matéria: moral, justiça, mutualidade, amor,
bondade, - transformando a vida num culto à divindade-corpo, numa luta
desesperada pelo bem-estar do organismo, na extorsão, por todos os meios, ao
mundo exterior, dos factores duma vida de conforto e satisfação material.
A vida reduziu-se
afinal a um conjunto de funções orgânicas, e, - heresia suprema, - ousou-se
classificar entre elas, a função pensante.
O pensamento
transformou-se numa secreção cerebral.
Ora, invocando ainda
o racionalismo de Descartes, nós podemos admitir que todos os nossos
conhecimentos são dominados por certos princípios supremos fornecidos pela
razão.
A razão afirma-nos
a sua própria existência fora da matéria.
O pensamento é,
consequentemente, não uma secreção cerebral, mas a manifestação da razão
através do cérebro.
E a razão é um
atributo do espírito.
Assim atingimos a
ponte de ligação entre o racionalismo e o espiritualismo.
Deve notar-se que
não pretendemos negar a legitimidade do materialismo filosófico; mas o
materialismo observa apenas um aspecto da realidade.
O neo-espiritualismo,
objectivado ao máximo nas teorias teosóficas, não desmente a legitimidade das
teorias que o combatem. Considera-as como prismas de visão limitada, que não
abrangem a realidade em toda a sua amplitude. Pela mesma razão, não refuta as
religiões. As religiões enfermam do mesmo mal.
E contudo, nós encontramos entre elas,
no Budismo, o espírito racionalista.
Gautama Buda ensinou que o dever dum pai
consiste em fazer instruir seu filho nas ciências e nas letras. Ensinou também
que não devemos crer nas afirmações dos sábios, dos livros ou das tradições,
desde que não estejam der acordo com a nossa razão.
Há nestes ensinamentos uma evidente
revolta contra a fé arbitrária, contra o dogma.
O espiritualismo racional é uma das
grandes armas de combate à situação social da época presente.
Oxalá não seja esquecida a falência das
seitas religiosas como obstáculo à imoralidade, à injustiça, à perversão, pelos
orientadores do neo-espiritualismo!
Perder-se hão assim os resultados
conseguidos já em todo o mundo, por essa força poderosa que tendia à
espiritualização da Humanidade pela Razão, e que se submergirá agora nas
grosseiras fórmulas dum fideísmo novo.
Para salvar o espiritualismo é
necessário libertá-lo desse falso misticismo e do dogmatismo que o diminuem,
propagá-lo como teoria filosófica moral e lógica, e finalmente aproximá-lo da
multidão no seu aspecto mais acessível e mais afirmativo.
O problema espiritualista tem preocupado,
sob esse aspecto, - o meta psiquismo, - grandes inteligências contemporâneas:
William Crookes, Lombroso, Flammarion, Charles Richet, Schrench Nötzing, René
Sudre, Geley, William James, Bergson, Maeterlinck e tantos outros.
Não há problema mais emocionante que o
problema da nossa vida espiritual, ao qual estão intimamente ligados o problema
da Felicidade Humana, o problema das nossas faculdades psíquicas, o problema da
morte.
Ninguém desconhece os numerosos factos
estranhos que, com incremento sensível no século actual, se estão dando no
mundo, sem que a ciência oficial consiga explicá-los.
Poderíamos citar alguns. A longa
documentação do relatório da «Society for Psychical Researches», ou da obra «La
morte et son mystère» de Camille Flammarion, para não mencionar outros
trabalhos, justifica a nossa abstenção.
O problema metapsíquico, conta hoje, de
resto, quer no seu aspecto teórico e filosófico, uma bibliografia que atinge
alguns milhões de volumes.
Portugal, porém, aparte uma pequena
minoria de curiosos, entre os quais rareiam os espíritos analíticos e do
critério científico, tem-se mantido indiferente à nova ciência.
Há uma incontestável falta de coragem
para afirmar, há uma evidente desorientação nas investigações, e um
desinteresse absoluto pela questão, por parte de quem, com bases cientificas e
categoria intelectual, tinha o dever de se aventurar nestas paragens
misteriosas, onde a fraude, muitas vezes inconsciente, tem surgido ao lado de
factos reais, lançando sobre os últimos uma atmosfera de suspeição e dúvida.
A Cidade do Sol provocará por isso entre
o reduzido número de pessoas alheias ao assunto que se derem à distracção de
nos ler, um gesto de indiferença, um sorriso céptico, talvez um sorriso de
piedade.
Expondo sob esta forma as possibilidades
psíquicas do ser humano, deixando entrever a acção vigorizante e moralizadora
das teorias neo-espiritualistas na sociedade, nós aspirava-mos despertar nos
meios intelectuais e ilustrados a curiosidade pelo assunto, cônscios de que é
necessário promover entre nós, analogamente ao que se está fazendo no
estrangeiro, o estudo e a investigação das leis que regem os fenómenos desta
natureza, a análise crítica desses milhares de factos que continuamente nos
chegam aos ouvidos e que é indispensável coligir, escolher, e rejeitar sempre
que não ofereçam garantias absolutas de autenticidade, - mas reconhecendo
publicamente tudo quanto for, na realidade, incontroverso.
Talvez nos acusem de confusos em certos
pontos. Atribuir-nos hão talvez intenções metafísicas que não tivemos.
O nosso trabalho foi concebido
especialmente para aqueles que já sobre o assunto têm alguns conhecimentos. A
névoa que poderá embaciar a clareza de certas passagens é consequência, em
parte, dessa circunstância.
***
Duas palavras
ainda, sobre o título.
Pouco tempo antes
do romance dar entrada no prelo, informaram-nos da existência duma obra de
Campanela, «La ciudade del Sol».
Não havendo
qualquer ponto de contacto entre o nosso trabalho e o livro espanhol que
desconhecíamos, resolvemos manter o título, com a consciência livre de qualquer
intenção plagiária.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
A face portuguesa pela Alemanha
A
turbulência política criada pelos problemas económico-financeiros na Europa,
remete-nos a todo o momento para a segunda guerra mundial, suas causas e suas consequências.
Se o conflito Israelo-palestiniano é consequência directa das resoluções
tomadas com o desfecho da guerra, já os problemas da Rússia e do leste europeu,
que teimam em despontar a curtos espaços de tempo, se enquadram tanto nas
causas da guerra 39-45 como no seu desfecho. Quanto à Alemanha, agora, como
então, é o centro disto tudo. Assim, o assunto da segunda guerra mundial
sobrevirá sempre que tentemos discutir, para compreender, o nosso mundo.
Hoje
trago um documento datado de 1942,
composto e impresso na Imprensa do Barreiro – 30’000 ex. – Lisboa. Trata-se
de uma simples folha impressa, com um formato muito próximo de A4, dobrado ao
meio, apresentado em A5, portanto, e consta alegadamente numa palestra radiodifundida de António Eça de
Queiroz
Transcrevi
e apresento-o abaixo, por motivos de facilitar a pesquisa e a leitura, mas
disponibilizei a sua digitalização integral na Página/separador 2.ª Guerra
O ressurgimento do
espírito nacional pelo fortalecimento do espírito legionário
Palestra radiodifundida de ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ
Não
há legionário que não recorde com nobre entusiasmo aquela noite de 28 de Agosto
de 1936, em que milhares de portugueses aclamaram, no Campo Pequeno, a ideia de
ser criada uma força voluntária para a defesa de Portugal contra a ameaça
comunista.
Não
há legionário que não recorde aqueles meses que se seguiram de intensa
preparação legionária. Pelo país inteiro homens de todas as classes e
proveniências enchiam as paradas dos quartéis e, comandados por uma “elite”
incansável de oficiais de terra e mar, aprenderam o manejo das armas a fim de
se prepararem para as possibilidades ameaçadoras de uma batalha imediata.
O
momento era de perigo. O comunismo jogava em Espanha a sua primeira cartada
militar para a subversão dos princípios da ordem europeia e da civilização
ocidental. Todos o sentiam e compreendiam e por isso fizeram pesados
sacrifícios. Foram momentos magníficos. O país via nascer e crescer com um
suspiro de alívio uma poderosa força voluntária, força que seria mais uma
barreira oposta aos velhos desígnios de Moscovo: a revolução e a ideia
comunista alastradas ao mundo inteiro!
* * *
Mais
tarde, a eminência do perigo, na sua forma violenta, esbateu-se. As tropas
nacionais de Espanha derrubavam e aniquilavam as hordas vermelhas ”del frente
popular” e as brigadas internacionais de sinistra memória… o comunismo sofria
ali a sua primeira grande derrota militar.
Então
pouco a pouco, com a diminuição do perigo tangível, a actividade legionária
abrandou, sucedendo-lhe um período de acalmia…
O
ritmo dos exercícios tornou-se mais compassado, o espírito de arrancada e
sacrifício diminuiu. Dizia-se, inconsequentemente, que o perigo fora afastado,
e a alguns até parecia que a Legião poderia licenciar-se, conservando-se apenas
uma força simbólica que deveria limitar-se a uma acção de carácter social. A
clara chama que um grande vento de patriotismo ateara ardia menos alta… o
perigo fora afastado.
Era
este um erro profundo, direi mais, um erro criminoso, pois é crime ser cego,
quando a evidência dos factos está, contudo, à vista, e é crime ser surdo,
quando o rumor da catástrofe se sente claramente, logo que se presta o ouvido.
Nesse
erro não incorreu o comando legionário. Não podendo manter ao rubro dos
primeiros momentos o esforço militar da Legião, resolveu aguentá-lo, tornando-o
menos áspero, mas conservando intacta a força material existente, ligando
sempre mais as obrigações e o ideal legionário à orgânica do Estado, o que, a
breve trecho, deu à Legião Portuguesa uma solidez moral e uma consistência de
acção muito superior àquela que tantos lhe supõem e que o adversário, na sua
incompreensão, lhe nega.
Avisado
foi o comando, visto que, por esta forma, nos conservou uma força que é hoje
mais uma das salvaguardas da nossa existência de portugueses livres e do Estado
Novo, que bem podemos considerar como o mais forte baluarte da nossa
independência como nação, dos nossos direitos e crenças como homens.
* * *
Nisto
estávamos em 1941, quando dos acasos da guerra surgiu o imenso conflito
germano-soviético.
De
novo se alcançavam em armas as hordas de Moscovo. De novo surgiu o perigo na
sua forma violenta – mas já se não tratava apenas da escória das brigadas
internacionais que haviam tentado assassinar a Espanha, era a força inteira da
máquina de guerra comunista voltada contra a Europa toda. Então se pode
verificar quanto se enganavam aqueles que julgavam afastado e debelado o perigo
comunista.
À
gigantesca força do exército alemão vimos oporem-se as hordas inumeráveis do
exército vermelho, e todos, excepto aqueles a quem compreender não era
conveniente, compreenderam o incomensurável risco que ameaçara, ameaçava e
ameaça o continente europeu.
Todos
puderam avaliar as monstruosas proporções do arsenal de Moscovo e sentir a
magnitude da catástrofe que nos assolaria, se a iniciativa do ataque tivesse
sido tomada pelo comando soviético ou se a fortuna da guerra tivesse feito
pender a balança para o lado de Moscovo!
Deus
seja louvado, essa iniciativa foi-lhe arrebatada, e foi imenso o desgaste que
sofreram as forças comunistas. Foi esta uma vantagem salvadora, mas não
definitiva, já que não prostrou por completo o adversário, e que não pode
evitar o esforço teimoso e renovado da propaganda comunista a minar, a
conspirar, a comprar braços e consciências em todas as regiões da Europa e do
globo, para acudir ao monstro escarlate, ferido sim, mas ainda vigoroso, que
punha à dura prova os soldados da cruzada que, do Mar Ártico ao Mar Negro,
atacam o comunismo e defendem a Europa.
* * *
E
sobreveio o inverno, este inverno inclemente de 1942, que conseguiu parar os
soldados europeus na sua marcha em frente para uma vitória que já parecia certa
e que, assim o cremos, apenas foi retardada.
Não
podemos duvidar do triunfo, mas é certo devermos constatar que os imensos
golpes sofridos pelo exército vermelho lhe não tinham roubado uma notável
capacidade de reacção. Novas hordas se
formaram, mal ou bem os seus chefes as equiparam e com um insano desprezo pelas
perdas, protegidos pelos rigores da invernia a que estão habituados e pela
estratégia defensiva das forças europeias, encontraram energia bastante para se
arremessarem ao ataque.
Isto
prova insofismavelmente o grande poder do inimigo a derrubar. Isto prova-nos
com eloquência que o perigo ainda existe latente e formidável. Isto prova-nos a
demência de todos aqueles que julgam que a acção legionária já não tem para
subsistir as razões de 1936, e que são imbecis ou traidores aqueles que
declaram absurda, por desnecessária, a rexistência da Legião Portuguesa.
Por
mais qua a ofensiva soviética tenha fracassado, por mais que se desgaste
batendo-se no vasto interior da Rússia, ela foi um compasso de espera
amplamente aproveitado por um adversário que nada esquece. Ateou um grande
movimento de reacção e propaganda nas massas comunistas, comunisantes e
comunisadas do mundo inteiro. Em toda a parte a acção lateja e toma corpo.
Disfarçada
sob mil formas, a propaganda comunista trabalha sem descanso. Passeia na rua
com o povo, entra na oficina e na fábrica, insinua-se na repartição, trava
conhecimento e simula amizade, excita sabiamente à revolta e à sabotagem,
aproveita o despeitado e o falhado, acirra o invejoso, oferece o poder ao
ambicioso e espalha a corrupção do ouro. Joga com as misérias dos desgraçados e
com o terror do avarento. Senta-se à mesa dos cafés, alicia, comenta com
habilidade as notícias da guerra na Rússia, dirige subtilmente conversa,
fornece o argumento preciso, inventa e espalha o boato. Infiltra-se nas salas;
elegantemente derrotista, escarneia a existência do perigo, faz epigramas e
críticas venenosas, torce e deturpa as verdades, provoca o escândalo. Invade a
revista e a imprensa, onde , sob máscaras mal afiveladas, insinua, deturpa e
mente. Forja a calúnia e alimenta a guerra dos nervos.
Está
em toda a parte, vive em todos os meios, mais ou menos invisível, trabalha,
actua, corrompe.
Encontro-a
no cavalheiro que não crê no perigo comunista, e que nos pinta uma Rússia
ordeira e já burguesa; naqueles que odeiam o Estado Novo porque não conseguem
emprego ou os obriga a sacrifícios; no idiota que afirma peremptório que uma
vitória soviética não implica uma vitória da política comunista; no cronista de
guerra que, dissimulado sob palavrões técnicos de estratégia e táctica, comenta
a campanha da Rússia com uma má fé
flagrante; no estadista que, através da rádio, nos diz que para alcançar os
seus fins os exércitos soviéticos marcharão através da Europa até onde seja
necessário; no orador que proclama com gravidade que ao Sr. Estaline se pode
confiar sem receio, ao terminar a guerra, a reconstrução política da Europa. Em
todos aqueles que por aí declaram que o comunismo evoluiu e é hoje um caso
nacional russo que não pretende a universalidade; nos que se dizem espíritos
liberais e democráticos, nos “reviralhistas” que preferem tudo, incluindo o
comunismo, ao actual estado de coisas português. Vemo-la infinitamente
perigosa, engrinaldada de atractivos, nos filmes de cinematógrafo que inundam e
corrompem o mundo inteiro. Observamo-la no mal contido afã com que certas
pessoas decoram e comentam o comunicado russo. Notamo-la em todos aqueles que
encolhemos ombros, quando se lhes fala no perigo soviético ou se abespinham e
nos chamam germanófilos e belicistas, quando desejamos a derrota comunista.
Existe,
evidentemente e notável, só não lhe dando atenção quem por índole covarde fecha
os olhos à verdade ou quem a nega por preferência.
São
mil as formas e as manhas. É uma grande, uma teimosa ofensiva; é a tentativa
lógica de minar, de perturbar a ordem nas retaguardas europeias, enfraquecendo
as nações pela ameaça da revolta e do medo. É a ofensiva do desespero, no qual
o comunismo põe tudo em jogo, na esperança de colher resultados favoráveis,
antes, se possível, e durante aquilo que Moscovo teme, neste momento, acima de
tudo mais e com ela o grande ajuste de contas em que tantas forças morais e
materiais da Europa se vão lançar ao assalto da máquina de guerra soviética que
aguenta e protege a alma escarlate do comunismo mundial.
* * *
Se
eu desta maneira mostro a extensão do perigo, a força e a astúcia da propaganda
inimiga, é porque os conhecemos e porque estamos alerta. Um perigo e um inimigo
cujos valores se não ignoram, são elementos que se sabe onde e como combater…
mais fáceis, portanto de vencer. Pois já que os conhecemos, saibamos
defrontá-los. Não nos faltará, decerto, nem a coragem nem a decisão precisas
para, sem temor e com entusiasmo, redobrarmos de energia neste combate que há
25 anos nunca deixou de existir e que alcança hoje o seu terrível apogeu.
Eu
não creio que exista um único legionário português que oponha uma contradição
às minhas afirmações. Não o creio; mas se por acaso existe, esse não é
legionário e não merece a honra de considerar-se português – consciente ou
inconsciente é um amigo da Rússia soviética, um adepto da foice e do martelo,
e, como tal, um imigo que deve ser eliminado!
Julgo
que estamos todos de acordo… O perigo existe igual, perfeitamente igual àquele
que existia em 1936. Para lutar contra ele, doa a quem doer, custe a quem
custar, devemos estar preparados e, recalcando dúvidas ou receios inglórios,
prontos cada dia com mais firme vontade a todos os sacrifícios; a combater sem
tréguas, por todas as formas ao nosso alcance, este inimigo implacável que, a
não aniquilar-se, será a o ariete que deixará por terra o bastião de paz, de
ordem e de prosperidade que as fortes mãos de Salazar souberam construir, para
glória sua e nossa, sobre as ruinas que havia deixado em Portugal a política
demo-limeral precursora da anarquia soviética.
E
assim, fortalecendo o espírito legionário, daremos novo alento à obra
maravilhosa do ressurgimento nacional, que só pode vingar e durar o
aniquilamento total do espírito comunista.
O
que é que está em jogo? É a liberdade da humanidade cristã ameaçada
terrivelmente pela mais execrável das tiranias ideológicas.
É
o claro momento da civilização europeia ameaçado pela mais abominável ditadura
da escravização moral e material.
São
os princípios, as ideias, as tradições, o sagrado património que nos foram
legados por oito nobres séculos da História gloriosa.
É
Portugal! É a paz, a tranquilidade desta nossa abençoada e querida terra
portuguesa!
Temos
a fortuna de sermos guiados por grandes chefes. Tenhamos confiança neles,
absoluta confiança. São eles que, a par das nossas consciências, dão a palavra
de ordem e nos mostram o caminho na luta contra o comunismo. Não lhes faltemos,
nem a eles, nem a nós próprios, para que um dia a geração que nos há-de seguir,
salva pelo nosso esforço, possa dizer com orgulho e com reconhecimento: eles
foram bons portugueses, bons cristãos e bons soldados na cruzada vencedora da
Europa contra o comunismo.
Composto e impresso na Imprensa Barreiro – 30.000
ex. – Lisboa, Julho de 1942
NOTA:
António d’ Eça de Queirós, 28/12/1889 – 16/5/1968
Foi oficial do exército, escritor, comissário a várias
exposições internacionais, presidente da direcção da Emissora Nacional de
Radiodifusão, grande oficial da Ordem de Cristo…
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Dicionário de lugares imaginários
.../...
Entre os diversos tipos de viagens imaginárias, a do viajante de
poltrona constitui uma classe em si. Alguns, como Plínio, o Velho, no século I,
escreveram textos interessantes sobre lugares distantes que nunca viram, com
uma convicção que, séculos mais tarde, levou leitores como Otelo a acreditarem
que havia «homens cujas cabeças/ crescem por baixo dos ombros», como aparece
representado na Crónica de Nuremberga,
de 1493. O contumaz mentiroso John de Mandeville, por exemplo, descreveu como
visitou grande parte do Oriente, como bebeu da Fonte da juventude, na costa do
Malabar, e como serviu no exército do imperador da China. «Do Paraíso», refere,
no entanto, «não posso falar, dado não ter estado lá».
.../...
Dicionário de lugares imaginários
Autores: Alberto Manguel e Gianni Guadalupi
Ilustrações: Graham Greenfield e Eric Beddows
Mapas: James Cook
Tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos
Capa: Vera Tavares
1ª edição: Agosto de 2013
TINTA DA CHINA - Lisboa
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Dito (54)
Everybody does have a book in them, but in most cases
that´s where it should stay.
Christopher Hitchens
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Poesia Popular
Isto é uma coutada?
Neste nosso País de liberdade
as mulheres, na terra dos capões,
são proibidas por certos figurões
de tocarem na banda da cidade.
E os que mandam alinham nisto tudo,
vão dizendo que sim com toda a gente,
entre eles não há nada de diferente,
andam todos ao som do tal "canudo".
O que diz a constituição, é entulho!...
o que importa é subsidiar o orgulho
desses ditos senhores da coutada,
que dizem para aí, à boca cheia,
a mulher é um bombo em que se arreia...
só serve p'ra parir e p'ra mais nada!
2-12-2012
Rodela, poeta popular freamundense.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Contra o (dito) Acordo Ortográfico
Pedro Correia é jornalista e activíssimo bloguista nacional; escreve no DELITO DE OPINIÃO e tem feito um trabalho consistente e persistente para denunciar o despropósito disso a que se resolveu chamar acordo ortográfico.
Já está disponível nas livrarias e tem sessão de lançamento marcada para Terça-Feira, dia 21, a partir das 18h30' na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). Fará a apresentação o Pedro Mexia.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Parteira improvisada
olá Doutor Miguel Brito
com que então fez de parteira
duma gata parideira
e nem precisou de apito
pois logo ao primeiro grito
mesmo sem mão calejada
lá foi salvar a ninhada
que se safou inteirinha
graças à sua mãozinha
de parteira improvisada.
Rodela 15-05-2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
António de Cértima
Texto assinado por António de Cértima, publicado no n.º 115 da revista ABC, de 28/09/1922 – Ilustração de Martins Barata
António de Cértima (Oiã 1894 – Tondela 1983), foi cônsul em Dakar e em Sevilha
Nome de baptismo, António Augusto Gomes Cruzeiro
Maria Dolorosa
(RETRATO DE MULHER EM SEDA CRUA)
Falar dela a esta hora fulva e sob
este céu ardente, copiado das páginas reverberantes de «Il Fuoco», é mal
pronunciar, simplesmente, o alfabeto das suas frivolidades: as suas vinte e
cinco «Tailleurs» e os seus vinte e cinco anos representados em outros tantos
«batons» e bistres – idioma de perfumes e elegâncias em que ela nacionaliza as
suas atitudes. Por isso, a despeito dos magnetismos cerúleos com que a evoco…;
a despeito da febre de meus nervos de Outono onde ela se atulipa com passos
rítmicos de folha seca, eu apenas sei repetir, aqui, aquela fotografia
contorsiante em que uma vez a revelei sobre a seda crespa de minha
sensibilidade – uma seda crua, com relevos neuróticos, de onde a Duse cortou os
seus vestidos…
………….
- La
«Douleureuse»! A sua vida é um livro mas um livro raro, com páginas de Wilde e
Soror Mariana, sem «vient de paraitre» nem editor: é um livro por editar. A
capa deste livro, «brochée» por dentro a inéditos de Camilo e folhas aliciantes
de begónia, é, à nipónica, de um tecido original, com ramagens berrantes de
paixão… o tecido do seu corpo – tapeçaria plástica dos tecidos das anatomias
requintadas de Paris. O seu corpo é, pois, uma capa rara com um desenho a
sanguínea – a sua boca, tirada em papel «couché», o «couché» da sua beleza.
António
Soares deformou-a para a capa de uma edição plagiada com talento: a «Leviana»
de António Ferro. Mas ainda assim a sua boca não se perdeu cm o roubo de tintas
do pintor. Continua posta no seu corpo, sortílega, inatingível, suprema, como
precioso ex-libris de fascinação a etiquetar toda a sua vida – esse livro cujas
folhas intactas, por abrir, eu rasgo agora delicadamente com o corta-papel da
minha amizade.
Tenho aqui um maço de cartas-programa, formato teatral, bilhetes, pensamentos, retratos, e alguns dos seus artigos inéditos, destinados aos jornais onde colabora, - enfim, toda uma argamassa de jornalismo e arte em que ela se tem publicado para mim em folhetins, no folhetim branco do seu corpo! E agora, como em todos os intervalos da minha febre, como sempre, eu, encostado na «maple» doce da sua lembrança, leio-a toda nesta biblioteca com que tem guarnecido, com os seus nervos e com os seus dedos melodiosos, as estantes literárias de meu coração de moço. E nesta leitura vai uma tarefa emotiva e contumaz: ando a ver se a foco na objectiva da minha nevrose, a ver se a fixo como quero na minha estesia a fim de a resumir numa epígrafe vibrátil e única – essa epígrafe em que ela viaja pelo mundo, laconicamente, sinteticamente, sem comentários e sem programas, muito senhora de si e de suas tendências singulares, como uma grande página esguia, sem texto, que fosse submetida à censura de Deus.
Tenho aqui um maço de cartas-programa, formato teatral, bilhetes, pensamentos, retratos, e alguns dos seus artigos inéditos, destinados aos jornais onde colabora, - enfim, toda uma argamassa de jornalismo e arte em que ela se tem publicado para mim em folhetins, no folhetim branco do seu corpo! E agora, como em todos os intervalos da minha febre, como sempre, eu, encostado na «maple» doce da sua lembrança, leio-a toda nesta biblioteca com que tem guarnecido, com os seus nervos e com os seus dedos melodiosos, as estantes literárias de meu coração de moço. E nesta leitura vai uma tarefa emotiva e contumaz: ando a ver se a foco na objectiva da minha nevrose, a ver se a fixo como quero na minha estesia a fim de a resumir numa epígrafe vibrátil e única – essa epígrafe em que ela viaja pelo mundo, laconicamente, sinteticamente, sem comentários e sem programas, muito senhora de si e de suas tendências singulares, como uma grande página esguia, sem texto, que fosse submetida à censura de Deus.
Maria
Dolorosa, é assim a mulher «hors-programme». Poucos a compreendem visto que
toda a gente vem para o tablado onde ela passa como um meteoro ardente, a
faulhar de arte, a horas certas – as horas do censo comum – e ela, supremamente
egoísta e aristocraticamente «aparte», vem sempre fora de horas.
A vida é hoje
um enxundioso monopólio de burgueses; os seus sentimentos, as suas paixões são
outras tantas figuras que o preconceito – o grande novo-rico – mandou gravar
num medalhão servil, em barro das Caldas – as caldas da moral! Ora, Maria
Dolorosa, maquilhada de uma independência «raffinée» tem vindo pela vida fora
lendo esse medalhão no anverso para fugir ao horror da vulgaridade, e de aqui
os seus dois escandalosos processos, escandalosos para os seus leitores
ignorantes: ela fez do Amor um meio e da Dor um fim! Amorosa e santa desta
maneira, tem-se enchido de lágrimas com que escreve a negro o seu drama, esse
intenso drama «só para raros» que o Hamlet da sua boca teima em fazer
representar a sério mergulhando os floretes do seu «charme» no peito dos
espectadores…
Maria Dolorosa é um livro raro, meus
senhores – o meu melhor livro do século XX, aquele em que trabalha
pacientemente com a laboriosa pertinácia de um construtor de séculos.
Ela ficará, portanto, sendo um
século – o século do seu corpo e da sua boca imortal – fechado com requinte, e
a fechos de prata, dentro de um livro – a sua vida- e que eu ainda não
publiquei por não ter acertado com o título… o título do seu beijo!
ANTÓNIO DE CÉRTIMA
P.S. – Chega-me a notícia de que Maria Dolorosa acaba de
casar – isto é, encheu de gralhas o livro da sua vida. Ficará uma edição
errada: tentando o público pela capa mas com as linhas do texto desconjuntadas
pelo dedo ignominioso do marido…
A.
de C.
| O livro de que se fala no texto, com capa de António Soares |
Sobre LEVIANA de António Ferro aqui
Sobre o Mestre António Soares, aqui
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Um grande medo
Poeta Fernando Caldeira, Águeda, 1842 – 1894
…
/ …
Águeda
quiz-lhe muito – quere-lhe hoje ainda atravez da sua memoria. Quando na tarde
embaceada de 4 de Abril de 1894 o seu cadaver, ido de Lisboa, atravessou as
ruas hirtas da vila em direcção ao jardinsito fúnebre do Adro, Águeda dobrou-se
toda, de coração ajoelhado, numa homenagem sentida ao seu poeta. Fecharam-se os
estabelecimentos. As mulheres vestiram de luto …
Vem
a proposito transcrever aqui o seguinte testamento meio supersticioso, meio
sinistro, escrito pelo punho do poeta e que sempre o acompanhava, enquadrado
numa pequena moldura de pau-preto, como aviso macabro-filosófico de que um horrível
pensamento fizesse um «bibelote» de viagem atravez de solares de que fosse
hospede e anónimos quartos de hotel:
Na idéa de
morrer aflige-me mais a saudade imensa da vida do que o medo. Se
porem,
não tenho medo de morrer, tenho verdadeiro terror com a idéa de que
poderão
enterrar-me vivo. – Penso, que no mistério dos tumulos se passam,
para
sempre ignorados, muitos, muitos desses horrores; é esta a mais constante
preocupação
do meu espírito. – Peço pois a meus irmãos e aos meus amigos
que,
ou seja por doença (e qualquer doença) ou por morte repentina, quando
eu
fôr dado morto, «só trinta e seis horas» depois consintam que eu seja
removido
da minha cama – onde me velarão constantemente duas pessoas
caridosas
e não timoratas; sendo de nove em nove horas observado por médico,
que
antes dos sintomas de decomposição me
apliquem choques eléctricos e
«afinal
me cortem as carotidas»: - Lisbôa, 30 de Abril de 1890.
(a) FERNANDO CALDEIRA
…/…
Excerto de artigo assinado por António de
Cértima
Revista
ABC, n.º 111 – Lisboa, 31 de Agosto de 1922
segunda-feira, 18 de março de 2013
Samarcanda
…
- É sempre preferível que uma desgraça
chegue tarde! Não conheces a história do burro falante de Nollah Nasruddine?
Este último é o herói semi-lendário de
todas as anedotas e de todas as parábolas da Pérsia, da Transoxiânia e da Ásia
Menor. Chirine contou:
- Dizem que um rei meio louco condenara
Nasruddine à morte por ter roubado um burro. No momento em que vão conduzi-lo
ao suplício, Nasruddine exclama: «Este animal é em realidade meu irmão, um
mágico deu-lhe a aparência que vedes, mas se mo confiarem durante um ano ensiná-lo-ei
de novo a falar como vós e eu!». Intrigado, o monarca manda o acusado repetir a
promessa antes de decretar: «Muito bem! Mas se dentro de um ano, nem mais um
dia, o burro não falar, serás executado.» À saída, Nasruddine é interpelado
pela esposa: «como podes prometer semelhante coisa? Sabes muito bem que o burro
nunca há-de falar.» - «É claro que sei», responde Nasruddine, «mas daqui a um
ano o rei pode morrer, o burro pode morrer, ou então posso eu morrer.» a
princesa prosseguiu:
- Se tivéssemos sabido ganhar tempo, a
Rússia talvez se atolasse nas guerras dos Balcãs ou na China. E depois o czar
não é eterno, …
Título do original: Samarcande
Tradução de G. Cascais Franco
Autor. Amin Maalouf
(Distribuição de forma conjunta e inseparável com uma publicação do Grupo COFINA)
BIBLIOTECA SÁBADO
terça-feira, 5 de março de 2013
Omar Khayyam
Omar Khayyam (1048-1131), persa de Nichapur,
poeta, matemático e astrónomo.
Trago um dos seus Rubaiyat ou robai (no singular) - quadra:
***
Se não
tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
***
Encontre os seus rubaiyat aqui
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O Fenómeno Humano
O FENÓMENO HUMANO
Pierre Teilhard de Chardin(escrito entre 1938 e 1940, sofreu "retoques" em 1947 e 1948)
Editora Herder – São Paulo
Filosofia e Religião (16º Volume) – Biblioteca fundada por Leonardo Coimbra
Livraria Tavares Martins, Porto – 1970 (3ª Edição)
Título Original: LE PHÉNOMENE HUMAIN (Éditions du Seuil, Paris)
Tradução portuguesa de LÉON BOURDON (Professor) e JOSÉ TERRA (Leitor), do Instituto de
Estudos Portugueses da Sorbonne
Os direitos
Extracto do RESUMO OU
POSFÁCIO
…
1. UM MUNDO QUE SE ENROLA: OU A LEI
CÓSMICA DE
COMPLEXIDADE-CONSCIÊNCIA
Temo-nos
familiarizado ultimamente, na escola dos astrónomos, com a ideia de um Universo
que, desde há alguns biliões de anos (apenas!), teria vindo desabrochando em
galáxias a partir de uma espécie de átomo primordial. Esta perspectiva de um
mundo em estado de explosão é ainda discutida: mas a nenhum físico ocorreria a
ideia de a rejeitar como eivada de filosofia ou de finalismo. Não é mau ter sob
os olhos este exemplo para compreender ao mesmo tempo o alcance, os limites e a
perfeita legitimidade científica das concepções que aqui proponho. Reduzido,
com efeito, ao seu cerne mais puro, a substância das longas páginas que
precedem reduzem inteiramente a esta simples afirmação, que, se o Universo nos
aparece sideralmente como em vias de expansão espacial (do ínfimo ao imenso),
do mesmo modo, e ainda mais claramente, ele se nos apresenta, físico-químicamente,
como em vias de enrolamento orgânico
sobre si próprio (do muito simples ao extremamente complicado) – achando-se
este enrolamento particular «de complexidade» experimentalmente ligado a um
aumento correlativo de interiorização, quer dizer de psique ou consciência.
No
domínio exíguo do nosso planeta (o único até agora em que podemos praticar a
Biologia), a relação estrutural aqui notada entre complexidade e consciência é
experimentalmente incontestável, e desde sempre conhecida. O que confere originalidade
à posição adoptada neste livro é o facto de nele se afirmar, desde início, que
esta propriedade particular que possuem as substâncias terrestres de cada vez
mais se vitalizarem complicando-se cada vez mais não é senão a manifestação e a
expressão local de uma deriva tão universal (e excepcionalmente significativa)
como aquelas, já identificadas pela Ciência, que levam as camadas cósmicas não
só a alastrarem explosivamente como uma onda, mas também a condensarem-se
corpuscularmente sob as formas do electromagnetismo e da gravidade, ou ainda a
desmaterializarem-se por irradiação: achando-se provavelmente estas diversas
derivas (um dia o reconheceremos) estritamente conjugadas entre si.
Se
assim é, vê-se que a consciência, definida experimentalmente como efeito
específico da complexidade organizada, ultrapassa muito o intervalo , ridiculamente
pequeno, em que os nossos olhos conseguem distingui-la directamente.
Por
um lado, com efeito, mesmo onde valores quer muito pequenos, quer até
médios, de complexidade no-la tornam
estritamente imperceptível (quer dizer, a partir e abaixo das muito grandes
moléculas), somos logicamente levados a conjecturar em qualquer corpúsculo a
existência rudimentar (no estado de infinitamente pequeno, isto é,
infinitamente difuso) de alguma psique – exactamente como o físico admite e
poderia calcular as alterações de massa (completamente inapreensíveis para uma
experiência directa) que se produzem no caso de movimentos lentos.
Por
outro lado, precisamente nos pontos do Mundo onde, em consequência de
circunstâncias físicas diversas (temperatura, gravidade…), a complexidade não
chega a atingir os valores ao nível dos quais uma irradiação de consciência
poderia influenciar os nossos olhos, somos induzidos a pensar que, tornando-se
favoráveis as condições, o enrolamento, momentaneamente detido, retomaria logo
a sua marcha para a frente.
Observando,
insisto, segundo o seu eixo das Complexidades, o Universo encontra-se, no
conjunto e em cada um dos seus pontos, em estado de tensão contínua de
dobramento orgânico sobre si mesmo e, portanto, de interiorização. O que significa
que, para a Ciência, a Vida se acha desde sempre e por toda a parte em estado
de pressão; e que, nos sítios em que conseguiu romper de modo apreciável, nada
a pode impedir de levar até ao máximo o processo de que saiu.
…
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