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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ocorrência v

Ocupou os minutos seguintes com formalidades processuais, pôs o secretário a ler para a sala uma peça que lhe daria tempo a voltar a si, concentrou-se a olhar para as próprias mãos impecáveis, dedos longos, pele firme e macia, unhas cuidadas, tinha voltado a si. Já lhe rolava outra vez o olhar pela sala. A comunicação social quase não se via, iria aumentar já na próxima audiência. Aquela massa de gente tão heterogénea era tão intrigante quanto o pouco ruido que emitia; nem tosse nem bichanar nem o bulício de rabos nos bancos, trajes estranhos, tão diversos, não era costume ver-se pessoas tão velhas nos julgamentos.
Voltado a si, foi traído pelos próprios pensamentos. Sem saber de onde, a cabeça tinha desencantado a palavra encarnação e se verbalizasse o que sentia teria dito, encarnei!
Sentiu-se num vórtice.
Como tinha permitido que aquele processo chegasse a tribunal? Já tinha mandado às urtigas questões bem mais consistentes.
Recusou uma terceira vertigem, deu por encerrada a cessão e marcou a próxima para dali a um mês; questões de agenda.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ocorrência iv


Agapito Silvério, o juiz presidente, demorou algum tempo até perceber que a maior parte do que sentia era autocomiseração. Tinha tido um percurso de vida de sucesso, foi um bom estudante sem se esforçar muito, cedo foi o que queria ser, foi advogado enquanto lhe deu gozo e agora era juiz e gostava. Ganhava bem, nunca tinha tido uma relação estável e fazia tudo para as evitar, trocava de carro por impulso, achava-se bonito…
Agapito Silvério, aquele nome, funcionou desde sempre como uma pedra no sapato mas ao mesmo tempo como o seu cartão-de-visita; incontornável. Até os professores mudavam o tom de voz quando o pronunciavam. Enquanto advogado habituou-se a reconhecer o peso das palavras e aprendeu a força da peculiaridade do seu nome.
Agora, naquela sala cheia e insuportavelmente bafienta, sentiu-se esmagado pela maior solidão, o sentimento mais forte que já experimentara. Certo de que eram influências da leitura das peças do processo, viu-se num momento no lugar do Cristo. Um estranho momento fora do tempo em que toda uma eternidade coube no curto gesto de voltar a pegar no pedacito de pão. Lá do alto, deixou cair o olhar sobre aquela multidão e percebeu que era dele que todos esperavam alguma coisa, apesar de tudo.

sábado, 8 de outubro de 2011

Ocorrência iii

O presidente do colectivo contava com uma grande prelecção e ficou claramente desnorteado quando ouviu o delegado do ministério público, numa só frase pronunciada discretamente, sem gestos, sem modelação do tom de voz nem outras peias, simplesmente como que só a informar:
- O ministério público acompanha formalmente este processo, faz votos para que siga criteriosamente a tramitação legal e não contribuirá para o seu apodrecimento.
Houve um advogado da acusação que chegou a manifestar algum incómodo com aquelas palavras e que logo de seguida não se importou de ficar feliz por ninguém ter reparado nisso. Todos os outros advogados fizeram trejeitos indecifráveis, uns com os olhos, outros com a boca ou com o franzir da testa, em qualquer caso sem dignidade para registo.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ocorrência ii

Já o delegado do ministério público pedia a palavra há algum tempo quando o juiz presidente deu conta disso; tinha estado ocupado a roer um bocadinho de pão, baixo e duro, enquanto os olhos percorriam aleatoriamente as capas dos dossiês no cimo da imensa pilha que lhe servia de secretária. Levantou-se num salto, pousou num gesto reflexo o pão e com os curtos bracinhos caídos ao longo do corpo, baixou o olhar numa evidente reverência e disse com uma vozinha sumida:
- De direito do Sr. Doutor e para o bem deste tribunal, faça o favor, Sr. Doutor.
A sala continuava a encher e a atmosfera já tinha pouco de respirável, as paredes escorriam o ressoado, todos ccomiam ou já tinham comido um pouco de pão, havia uma espécie de malgas com vinho a passar de mão em mão, e apesar de tudo reinava o silêncio!