Mostrar mensagens com a etiqueta Amália. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amália. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Carta de Godofredo


Caro Márcio, manda a verdade que diga que o principal motivo porque te escrevo, é certificar-me da tua saúde e render-me à tua inteligência e compreensão da condição humana. Gostarás, com toda a certeza, de saber que recuperei a serenidade que me era natural.
          Da última vez que estivemos juntos, eram os dias curtos, valeu-nos aos dois o fogo sempre aceso, e a mim, também a tua paciência; não foi em vão.
          A paixão que me matava, que deixei crescer até que me fizesse mal, foi um tempo apesar de tudo feliz, que não posso desprezar, só isso. Estou curado. Ontem estive com o juiz, deixei-me ficar na posição de pretendente rejeitado, reiterei o meu respeito por Laura, garanti-lhe a pureza da minha dedicação, e ficou tudo bem. Sou um homem livre e desconfio que por pouco tempo; há males que vêm por bem - Amália!
          Amália voltou. Está bonita, está ainda mais bonita. A primeira pessoa que visitou assim que chegou, fui eu. Deparei-me com ela na sala de espera do gabinete quando voltava de casa do juiz. Ter resolvido com o juiz, a desastrosa e impossível relação com a filha, foi libertador e refrescante; ver Amália de pé, muito sorridente, airosa e perfumada, linda, decote rendado e braços estendidos para mim, levou-me à idade do despertar, senti ruborescer e renasci.
          Tenho que te fazer justiça. Fui tolo. Aproveitei a tua disponibilidade para ouvir e desabafei o que precisava. Não te ouvi, ou nem te dei oportunidade de falar. Sei o que me terias dito se tivesses encontrado em mim a razoabilidade de ouvir um bom e sábio amigo. Tinha criado uma imagem interior que não correspondia àquela a quem dirigi toda a paixão. Laura não tem culpa; é uma mulher menina, tem a pureza da inocência que nunca ultrapassou. O viço da juventude no corpo de mulher, despertou-me o sangue e toldou-me a razão. Lembro-me de me teres dito, só mais tarde compreendi onde querias chegar, que uma mulher, como um homem, não pode espraiar a existência num contínuo das idades tenras; num momento, haveria que acontecer uma ruptura, uma estaladela no cristal, uma fímbria no plano, uma reverberação nas superfícies da percepção, um nó na linha de costura…um sopro…, que faltava algo a Laurinha. Lembro-me de teres terminado essa prelecção dizendo que eu merecia uma mulher valente.
          Hoje de manhã incumbi o padre Feliciano da celebração de uma missa por intenções pessoais, minhas. O padre olhou-me por cima dos óculos e agarrando firmemente a minha mão, perguntou-me: - Têm as tuas intenções a dignidade do sacramento? – Ao que eu retorqui: - Veio Cristo à terra por outra coisa que não os homens, padre? – Não o deixei responder; disse-lhe que estou de bem com o Pai e convidei-o para o jantar que darei hoje lá em casa, em que terei Amália do meu lado direito, o padre do lado esquerdo, os Fão, os Sobral, e a ti meu amigo, no coração.
          Manda notícias, e visita-me logo que puderes. O branco, reserva de há três anos, só o provo contigo

                   Um grande abraço,

                                                   Godofredo