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quarta-feira, 2 de março de 2016

Estás aí?


Publicado em SPACE DALY

Ele fez matemática, análise matemática, álgebra linear e geometria analítica, física I, II, III, IV, astrofísica e aeroespacial, química orgânica (e das outras) e em seguida passou aos altos estudos científicos.
Eu sempre gostei dele. Eu cresci a lê-lo - Tenho uma secção considerável da minha biblioteca com livros dele e é daqueles que, em ensaio de palavrear forte, eu diria que "nunca haviam ter morrido".
Olhou para a Terra numa fotografia tirada pela Voyager 1 e disse que era a nossa casa - Certo - que estava lá tudo o que conhecemos e ... e em que acreditamos - Bolas!
Nós humanos somos assim quando falamos - temos de contar com a boa-vontade de quem nos ouve.
Carl Sagan foi dos maiores difusores do conhecimento do Cosmos e de Ciência. Nunca deixou de expressar espanto pela incrível sina do big-bang - o aparecimento de estruturas "que pensam" - SAFA!
A apontar para um grão de pó fotografado a quatro mil milhões de milhas, por uma sonda construída por pequenos homens, disse-nos que tudo quanto conhecíamos estava no grão de pó.
Dá que pensar!  
Bem vistas as coisas, aquele "grão de poeira" nem é assim tão pequeno.
Estás aí, Deus?  

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pirilampo

Corria o mês de Abril de 1985, o tempo estava bom, noite escura de lua nova e eu marchava fardado e de arma à bandoleira com o resto do 2º batalhão de instrução pela Tapada Real. Aquela fase da instrução militar na Escola Prática de Infantaria (EPI) em Mafra designava-se por curso geral milicianos. Era frequente o batalhão fazer marcha nocturna, em duas longas colunas, uma de cada lado dos caminhos ou estradas, som maciço de passos, vozes poucas, grossas e gritadas.
A marcha, mesmo a passo estugado, dava-me prazer e essencialmente espaço para estar comigo que era o que mais me faltava. Mantida a distancia ao homem da frente estava tudo bem, ninguém chateava.
                O ritmo certo dos passos na quietude que a noite põe para a tropa passar era revigorante. O som dos motores dos veículos que encerravam a coluna, lá longe, o cheiro do gasóleo queimado, os feixes de luz a atravessar tudo e a denunciar as nuvens de pó levantadas, o resvalar de botas nos solos secos e pedregosos e os berros, as ordens berradas, imenso o poder gerado pela disciplina! – Chega à frente, chega à frente…
                Tinha só vinte anos, encaixava bem o treino duro, tinha de ser, via-me como num filme, como uma personagem da história, estava a viver uma coisa difícil de explicar, era uma coisa medonha, aquilo não era para todos, eu estava lá!
                - Chega à frente, isto ainda nem começou, chega à frente…
                Ao longe a silhueta irreal do convento distanciava-se.
                - Estão a ver o “calhau”? Ainda vão ter saudades dele!
                Era o que se chamava ao convento, calhau.
                - Chega à frente, formatura da manhã em fato de ginástica, chega à frente…                   
                Ia mudando a G3 de um ombro para o outro para aliviar a sensação de queimadura, uma passada a suceder-se a outra, era Abril, eu era jovem e forte, ao cimo de uma ribanceira uma suave curva à direita ainda a subir e depois uma vereda de matos altos, e uma visão de ficção à altura do melhor de Carl Sagan; numa extensão de centenas de metros uma parede de matos pejados de pirilampos a derramar pelo chão a sua fresca luz verde. Aquilo não era um filme, e eu estava lá. Eu fazia parte de uma cena improvável e sentia-me responsável por uma boa parte daquilo!
                Um dia destes vi uma luzinha verde pequenina nas escadas da nascente. Uma só, um só pirilampo que me fez recordar tanta coisa. Fiz algumas fotografias com muito cuidado consciente que era de mim que se tratava.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carl Sagan

Vai longa a insónia na noite chuvosa e encontro abrigo na minha memória e na liberdade dos meus pensamentos.
O som pontilhado da chuva nas árvores e nas grades da sacada, ora sugere uma torrente de fórmulas de trigonometria, como imensas sucessões de números à procura da sua fórmula geral, como logo a seguir traz ao grande quadro negro dos olhos abertos no escuro os números complexos, dízimas infinitas, constantes irracionais, todas as letras do alfabeto grego e um universo inteiro por explicar.
Alonga-se o tempo entre esse divagar e orações aprendidas há muito tempo que repito como mantras, intercalam-se memórias que me assaltam, fotografias, livros inteiros, imagens que nem sei onde as vou buscar, em todo o lado se assoma Deus e isso conforta-me. Viro-me para o outro lado e agora é uma estrela maior que o Sol e a fusão nuclear; um núcleo de hidrogénio que cai para outro e dá hélio e se cair outro dá lítio, com mais um berílio, de momento não me lembro do elemento com número atómico 5, mas sei que a seguir vem o carbono e depois o azoto e depois o oxigénio, assoma Deus – a Física é linda!
Algures num planeta a rachar de actividade vulcânica há um charco cheio de espirogiras – vai aparecer a espécie humana. Já está.
            Dou por mim dentro de uma cena do livro “Contacto” do Carl Sagan. Estou na praia astral onde aporta Ellie após a sua viagem cósmica. Reconheço o areal branco e largo, as palmeiras e as gaivotas. Olho à volta e confirmo que não estou no filme que fizeram com o mesmo título do livro e nele toscamente baseado, é mesmo o livro. Lá está a porta … A prumo, na areia, encontrava-se uma porta. Uma porta de madeira, com almofadas e um puxador de latão. …/… Não era em aspecto nenhum extraordinária. Para a Terra. …/… Surgiu uma figura na praia, a algumas centenas de metros de distância. …Vou ao encontro dele, é um rapazinho de cinco ou seis anos, com uma veste simples de linho cingida por um cordel com nós nas pontas. Conhecendo-me como me conheço, é o Menino Jesus.