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domingo, 19 de junho de 2011

Saramago

Jogaste desde novo pelos da cor do sangue, depois vieram os das vestes douradas e deram-te a mão, talvez para que eles mesmo mostrassem a tua cor no contexto deles.
Tu José, lá foste, e fizeste a vénia. Recebeste o ouro e os louros e ficaste grande. Assim do alto, as tuas palavras foram ainda mais longe, e as tuas dúvidas, e as tuas indignações, e as tuas ofensas.
Mas não foste todo, não! A parte dura manteve-se agarrada à terra, ao chão, à cor do sangue mesmo quando a confraria usa já opas doutra cor.
Dourado o ídolo fica-lhe na boca o vago, cavo – só se doura por fora
Assim que partiste voltaram os douradores, vieram os das artes, os das leis, os do circo, os embalsamadores, todos os funcionários do registo civil, antigas vestais, todos os secretários gerais.
Quem faltou foi notado.
È agora que te douram por dentro?
Longas exéquias se adivinham, o pó ao pó, as cinzas às cinzas, mas não é disso que se fala,
não se fala de coisas do tempo quando se fala de ti, José.
Deste-te não sabes a quê nem a quem e agora estás nas mão deles.
Terás o teu altar.
Terás o teu dia.
Terás a tua segunda vinda.
Enxertaram-te numa árvore e levaram-te à praça.
Vais ser publicado em folhas vivas, José.
Haverá ramos de oliveira cujas folhas são as tuas, és tu.
Tu, a ser comido e bebido, julgado e esmagado pela gentalha sedenta,
não de letras, José, de suplícios.
E se uma pomba, um dia, trouxer no bico um ramo de ti, significará isso que encontrou terra firme? Ou que entrada pela boca do Tejo, tenha a barca à deriva encontrado só Lisboa?
Como será ser tanta metáfora dos livros que te atormentam?
Guarda um lugar para mim aí, que eu também hei-de ir.
Se tenho preferência? À direita do Pai, José

terça-feira, 1 de março de 2011

treze

13 anos (treze)

Treze!
Eu gosto é de prosa, de prosa poética. Queria fazer para vos dar, uma coisa que vos agradasse.
Mas como posso eu com este 13? Se eu não compreender este mundo, de que falarei eu? O que verei quando me vir ao espelho?
Deduziram acusação ao fim de treze anos. Contra o principal suspeito. Contra o praticamente único suspeito. A procuradora fala em “reinvestigação”, em “solidificação dos indícios”. E eu pergunto-me sobre a sublimação da competência, as duas possíveis leituras; a da passagem directa do estado sólido ao estado gasoso, e a de se tornar-se simplesmente sublime (elevada, excelsa, eminente, eloquente…)
Vem o Sr. Bastonário e diz que o ministério público tem de se explicar; vem a procuradora e diz que se o Sr. Juiz quiser pode dizer alguma coisa, mas logo ali, avança que não há factos novos – que são os mesmos de há treze anos, agora reolhou-se e, e viu-se!
Sinto uma pressão nas têmporas e aquela sensação que vou sangrar pelo nariz…
Não me revejo a escrever estas coisas.
Eu gosto é das estações do ano, do grande ciclo que tudo regenera, gosto dos trovões, gosto da primavera. Mas, como posso eu olhar pela janela, este sobreiro aqui tão perto, não o vejo! Treze! Fica-me o zeeee do treze a repercutir no ouvido…
Depois vem um Sr. Responsável da polícia e diz qualquer coisa como que a distancia dos factos permitiu uma visão da coisa…
O aumento da pressão arterial pode também provocar estes zunidos, mas … não, este zeeeeeee… este zeeeeeeeee é do treze.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Matilde

Um dia destes voltou a acontecer, cá em casa.
A vida a abandonar um ser, e de quantas maneiras se serve para o deixar!
Às vezes de forma súbita, deixando o corpo com desprezo a estatelar-se no chão como coisa imediatamente sem préstimo. Outras vezes, como desta, muito devagar.
Veio de madrugada. De manhã era já grande o abandono. O frio já instalado nas extremidades ilustrado por matizes de azul e roxo, o sopro vital a escapar-se ficando no seu lugar uma arfar sem ritmo, o resfolegar a espaços incertos mas sempre longos, estertores…  O corpo arqueia, os membros alongam-se, uma expiração … mais um estertor, e outro… pode irromper um pranto á volta mas a dureza instalada nas gargantas é um tampão poderoso. O corpo arqueia e de seguida estica com uma expiração mais longa, descontrai-se lentamente, as pupilas abrem-se e fecham-se, espera-se, a quietude afirma-se.
Despojado de vida o corpo ainda quente é uma coisa medonha.
Vês uma luz?
Vai, segue a luz bichana.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Astride

Astride já não está entre nós. No entanto não consigo falar dela no passado; tenho para mim que as pessoas que existiram existem para sempre, assim como as obras de arte, assim como os objectos sagrados, os animais amados e outras coisas.
A Menorah continua a iluminar o seu povo, o farol de Alexandria é hoje mais alto e vê-se a sua lanterna mais longe do que quando estava de pé, Jesus faz nos dias de hoje mais milagres do que quando tínhamos a possibilidade de lhe puxar pelas vestes, as pirâmides do Egipto apesar de esventradas e a esboroarem-se no deserto continuam a levar para o futuro os que as construíram, e mesmo quando já se confundirem com as dunas continuarão a ser pirâmides.
A casa de Astride ainda lá está, os seus vestidos continuam dependurados nos armários, o calor do seu corpo disperso na atmosfera exala de corpos de mulheres que repetem gestos que ela fez, de velas que se acendem em alguns dias do ano e do rosto de rapazes que deixam os olhos bater em mulheres como ela.
Hoje não consigo falar de Astride no passado, não consigo falar dela de forma nenhuma.