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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Caixa de Correio


Uma caixa de correio que não se abre durante uns meses pode conter uma quantidade admirável de papel, guarda a evidência da eficácia dos correios locais, espelha a pujança da grande distribuição na localidade, conserva as notícias de aberturas no pequeno comércio, etc.
As caixas de correio fechadas há muito, transformam-se então em cápsulas do tempo muito criteriosas e selectivas, compostas por diferentes estratos que se prestam a ser analisados um por um antes de se mandar tudo para o lixo.
De vez em quando tenho direito a uma caixa de correio bem cheia. Acerco-me munido de um saco plástico e rápida e discretamente transfiro tudo até ao último papelinho, fecho a porta e afasto-me – é que uma caixa atulhada denuncia uma casa abandonada e isso não é nada bom. Depois há que fazer uma triagem, meia dúzia de papeizinhos interessantes como o do homem que arranja persianas serão guardados, as revistas locais e as publicações promocionais mais cuidadas merecerão uma vista d’olhos, a comunicação de que a companhia das águas quer fazer uma leitura real do contador terá de ser atendida … e o resto vai para a papeleira da rua.
Entre os papeizinhos interessantes existem quase sempre notícias da mediunidade, astrologia e ciências ocultas locais; não custa nada fazer uma leitura mesmo que enviesada. Fica-se sempre a saber os “mestres” e “professores” que temos à mão e que, por exemplo, o mestre Mamadu partilha os telemóveis com o mestre Indjai e que ambos partilham o apartamento com o mestre Souane que dá pelo nome de “PROFESSOR MAZID”, assim mesmo entre aspas, o mais rápido que possível!



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mordaça



           O fio que liga a minha casa ao mundo está no chão. Dei por isso na madrugada de ontem quando precisei do telefone e vi que estava morto; era como se estivesse ligado à corda da roupa. Uso tão pouco aquele aparelho que fiquei intrigado como tive vontade de lhe deitar a mão. Provavelmente foi ele que chamou por mim! Tinha estado mau tempo a noite toda, agora da janela vejo o fio preto a traçar uma parábola profunda, a confundir-se com os arames da ramada e a mergulhar no talho das pencas.
            O tempo acalmou, adivinha-se um dia frio. Da janela da copa avisto o fio na sua trajectória ondulante e descendente enquanto uso o telemóvel para contactar a minha operadora de comunicações, que não é a proprietária daquele fio. Atende-me uma voz gravada, dá-me as boas vindas e desfia as opções que tenho em troca de premir as teclas que me indica; já estou habituado.
            Tenho a minha cadelinha nova na cova da mão esquerda encostada ao peito, dorme. Vou ouvindo e marcando números, depois espero, espero, tenho música de guitarras ao longe interrompida a espaços curtos pela voz gravada que me diz que estou em fila de espera e serei atendido logo que possível. Faço um afago com o queixo no dorso da cachorrinha, é real. A voz diz-me que poderei ser contactado pela operadora num prazo de 48 horas se premir “um”, não primo nada, continuo à espera. Quarenta e oito horas no tempo da televisão digital terrestre, penso eu nem sei a propósito de quê.
            A empresa que me fornece o serviço de telefone fixo e de Internet pertence a um grupo de empresas a quem em tempos comprei a minha bicicleta, compramos lá quase toda a mercearia cá para casa, também vendem seguros para automóveis e hei-de ver se têm coleiras para cãezinhos tão pequeninos.
            Sou apanhado desprevenido por uma voz feminina em directo; cumprimenta-me, diz-me o nome e pergunta em que me pode ajudar. Esqueço de imediato o nome e explico que estou sem telefone nem Internet e que vejo o fio caído. Pergunta com quem está a falar e pelo número de telefone ou o número de contribuinte. Identifico-me como José Moura Pereira, dou o número de telefone e sinto aquela coisa no peito, vou ser tratado por Sr. José… Não, trata-me por Sr. José Pereira, desanuvio, pede para que aguarde um pouco, ouço teclar, diz que é conhecida uma avaria na minha zona, que está a ser tratada. Adivinho que não anotou em lado nenhum a existência de fios caídos
            Imagino que pegou numa folhinha de papel, um documento interno do sistema da qualidade, modelo n.º não sei quantos, intitulado recepção de reclamação ou de avaria ou coisa que o valha, preencheu algures a hora, escreveu em local próprio o meu nome, fez uma cruzinha à frente de “n.º de telefone” e depois escreveu-o… Mas sei que tudo se passou no teclado, que um dia um gráfico dirá que o tempo médio de resolução de uma avaria é inferior a oito horas, que os objectivos para o semestre seguinte contemplarão uma redução de alguns minutos nesse tempo. Sei também que a rapariga com quem falei pode estar em qualquer parte do mundo, que vou ficar vários dias sem telefone nem Internet e que isso só preocupa as pessoas cá de casa.


P.S. Nem chegou a dois dias sem internet, mesmo com fios caídos!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

ness...

     Outra vez, NESS...
     Não largas as latinhas de spray!


     Gráfica e esteticamente nem está nada mau,
     mas estás excessivamente retro, NESS!
     É para chegar à China?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para ness

Para o que te havia de dar, ness?
Sujar as  paredes!
Ai, ai... que feio!
E logo a spray.
Então não devia ser com pigmentos naturais e dados a pincel ou à boneca?
Tiveste o cuidado de ler o conteudo das latas?
Tens a certeza que o agente propulsor não é daqueles proibidos?
E olha, viste onde é que foi produzida essa tinta? É que se veio de muito longe, então esse teu gesto ainda gastou mais petróleo.
Estamos muito desanimados contigo; olha esse teu cabelo, consegues lavá-lo?
Também não podes plantar, ness.
Sabemos que sabes, então?
Vai lá, não faltes à aula de capoeira...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sabia que...

Que pode andar a conduzir com a carta caducada sem o saber, enquanto os alemães começam a concluir que as bactérias estão por todo o lado, mesmo na Alemanha?
Que os belgas estão sem governo há mais de um ano, sentem-se melhor governados assim e que têm uma dívida quase como a da França ou a de Espanha, ou até a nossa? E que o PS a partir de agora vai ser um partido responsável?
Sabia que mesmo aquilo que se sabe, se não for falado, é como não se passasse, não existisse, não se soubesse, nada, nada… e que os Estados Unidos da América têm o problema da dívida em resolução, tal é a capacidade de imprimir notas de banco?
Que na minha ainda curta (?) vida, o ouro já foi uma referência, já o deixou de ser, já voltou a ser e eu não sou propriamente uma anta, nem imortal, nem vampiro nem…
E agora, uma muito estúpida – Sabia que os habitantes da proximidade das cataratas do Niágara têm a testa para dentro, por todos os dias acordarem em sobressalto a perguntar que barulho é aquele, depois batem com a mão na testa – São as cataratas!

domingo, 29 de maio de 2011

O Xico

O Xico tem a vida toda embrulhada. Está magro, a melhor roupa que usa é velha e coçada, gagueja, solta perdigotos, faltam-lhe as palavras, repete-se, está chato.
Está parado á minha frente agarrado ao copo de fino que esvaziou num trago, quer dizer qualquer coisa que não lhe sai ou que lhe peça outro copo, tem o olho vidrado, larga uns “que’s" guturais, até que lhe sai uma frase completa sem engulhos, bem pronunciada:
- Ela disse ao juiz, que me aturou uma vida inteira.
Peço mais um fino para ele, que o meu está mais de meio. Já não me incomoda aquele olhar sem nada que o sustente, estou com tempo. Contenta-me pensar que o ajudo, a cerveja está bem tirada, o Xico já foi um amigo e agora … é inofensivo.
- Uma vida inteira; como se fosse muito! Que já não me aguenta mais e que só quer aquilo a que tem direito…
- Ainda gostas dela, não é?
- … mas só nos temos um ao outro…
Este tipo está em negação. O tempo vai resolver-lhe o problema, ou convencê-lo, e no fim mata-o, em qualquer caso.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Espera


Não deixei que nascesses sem ver como o fazes.
Esperei de pé, encostado a uma coluna do alpendre
e quando não havia dúvidas que eras um facto consumado
duvidei de ti, revi o escuro que permanece em boa parte do céu,
dou-me por vencido. Tens muita pressa!
Devoras grau a grau o arco em que habitas,
queimas tudo e logo anoiteces; apagas-me os passos.
Lá virás que eu já não veja, não o temo.
Temo sim, que a ver, não venhas tu apressado
e eu me dissolva na noite.

JMP

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Rita

Rita, temos que falar…
Não sei como te hei-de dizer. Talvez já tenhas sentido que algo está diferente, eu…
A culpa é minha, tenho mudado muito mas não posso deixar de me realizar, percebes?
Trouxe-te cá para casa há mais de sete anos e na verdade a maioria deles foram os melhores que já vivi, mas já não é assim.
A casa da tua mãe é um sítio onde sei que te sentes bem, ainda lá tens irmãos, seria melhor…
Há outra.
Aconteceu, pronto…
Os tempos são outros. Já não se mantêm relações só por razões morais.
Eu gosto de ti … mas já não chega!
Linda...
Tenho é que te escovar e ver o que se passa com essa coleira.
Isso é uma pulga?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O Magalhães


           O Magalhães faz desde há muito tempo uns biscates de trolha cá em casa. É um pouco mais velho que eu, não foi além da escola primária mas não se pode dizer que seja rústico. É todo robusto – fisicamente calejado e intelectualmente sempre coerente.
            Num intervalo para o lanche, interrompida a construção de um banco de pedra sob o carvalho grande e enquanto eu enchia os copos de vinho branco:
            - Você que sempre sabe mais do que eu, porque é que esse computador que dão aos cachopos é Magalhães?
            - Há um deputado socialista muito ligado às novas tecnologias, a estas coisas da introdução dos computadores e da Internet, é o José Magalhães. Já foi ele que fez o Eng.º Guterres depositar uma fé muito grande na Internet, que ia resolver os nossos problemas todos… Agora que o Sócrates se lembrou deste “bodo aos pobres” e como são todos uns peneirentos, lá homenagearam o tal deputado. Ou isso, ou para homenagear o descobridor guerreiro Fernão de Magalhães que quase fez uma volta ao mundo completa para o rei de Espanha. Está a ver? Volta ao mundo, Internet …
            - Tem razão. É tudo uma camada de peneirentos!