Folheto com 28 páginas no formato 21x17,6cm, aqui integralmente digitalizado.
Edição dos Serviços de Imprensa e Informação da Embaixada Britânica
Não está datado (inícios dos anos 40 do Séc. XX)
O bombardeiro de que se fala é o Stirling, a "companhia aérea" é a RAF, claro.
- Boa viagem.
Nota: A página 2.ª Guerra tem sido incrementada com muitos documentos novos em digitalização integral.
A arte de existir, se arte se lhe pode chamar, está na paciência de sofrer o desânimo, no ver semicerrando os olhos, no respirar fundo e depois, lentamente, deixar que com o sopro escape também a náusea e a desilusão. Porque tudo é teatro, adereços, bastidores, maquilhagem. São tantos os actores como os pontos que lhes sussurram as palavras a dizer, as atitudes a tomar, lhes mostram o caminho do proveito e os escolhos em que se tropeça. Actores, pontos, os que tocam a música, vão todos em fila, que é o mais seguro, debitando a monótona ladainha da aceitação, confortados por igualdades e direitos que imaginam, por certezas que lhes garantem tão seguras como o nascer do sol. O remédio é entrar no cortejo e ir também, cantar com eles, bater palmas, mostrar entusiasmo quando o arauto anunciar a passagem do rei e o esplendor do seu manto.
Sobre esta coisa de “eles e elas” o que haveremos de dizer? Poderemos falar de igualdade, seria o mais evidente, mas poderíamos falar de quotas, o que já não é assim tão óbvio. Poderíamos falar do “sempre assim foi” ou do “ter de ser”, o que seria uma forma de não querer, simplesmente, falar. Com esta coisa do eles e elas, lembrei-me dos combustíveis, e dos professores também. Aqui há uns tempos os supermercados começaram a vender os combustíveis a preços que envergonhavam as gasolineiras – as mesmas que sempre disseram que era um negócio de tostões, de margens reduzidas. Ora os supermercados além do preço mais baixo ainda arranjaram espaço para umas campanhas, para dias de descontos especiais, com acumulação de pontos em cartão e tudo. Com os combustíveis a virem todos do mesmo sítio, teve que ser a qualidade – sempre a qualidade - a justificar as diferenças, no caso, a existência de uns aditivos nos produtos de marca. Tomada como séria a justificação dada, mandou o governo que todas as bombas tivessem desse combustível simples mas sério, democrático, baratinho, sem aditivos nem desculpas. E as gasolineiras continuaram a ter os preços mais caros! Sobre os professores, estava escrito nas estrelas que formar autênticas turbas em “vias de ensino” com direito a título de professor e a carreira, daria mais tarde ou mais cedo – a demografia ditou que fosse mais cedo – a um excesso de candidatos a ensinar. O argumento maior dos candidatos foi que o ensino nunca é demais e o argumento maior dos governantes foi “que sim, mas com a melhor qualidade” – outra vez a qualidade. Arranjou-se então um exame para fazer aos pretendentes a professor que prova sempre, e agora reparemos na fineza da coisa, que prova sempre que os que passam nesse exame são exactamente os necessários para ensinar com qualidade! Os que não passam nesse exame não podem, pura e simplesmente, exercer a actividade para a qual uma instituição de ensino os formou com sucesso. Repararam como o meu discurso está sempre a perder o sentido? Agora já se questiona os cursos e as entidades que os ministram! O problema dos institutos e universidades que formam professores que reprovam, está tanto nos cursos como a diferença de preço dos combustíveis está nos aditivos. Os supermercados conseguem vender mais barato porque têm uma concepção da actividade comercial diferente, mais dinâmica, mais desenvolvida e integrada. As gasolineiras vendem mais caros os combustíveis, como mais caro vendem os clinex e as garrafas de água. Aos professores faz-se a maldade de os submeter ao charadismo selectivo porque não há emprego para dar a todos. Legislar para lá dos verdadeiros motivos das coisas, atender ao ruido que em determinado momento se fez para esconder a falta de melhor argumento, só conduz a um mundo sem sentido. Já tínhamos grandes painéis a informar que os combustíveis na auto-estrada têm sempre o mesmo preço, qualquer que seja a marca. Agora vamos ter pessoas a explicar aos filhos que este ano não podem dar aulas por terem reprovado num exame. Para o ano, vamos ver! Sobre eles e elas e a night, o melhor é nem mexer. Ainda se lembram de extinguir a diferença de género, ou levar todos a exame, ou sei lá…
O lobo
queria roubar um cordeirinho e seguia a direcção contrária ao vento, para que a
poeira levantada pelo rebanho o escondesse.
O
cão de guarda porém, avistou-o e disse-lhe:
-É
escusado esconderes-te com a poeira, amigo lobo. Assim arranjarás alguma doença
de olhos.
O
lobo respondeu-lhe:
-
Essa é que é a minha desgraça, meu cãozinho; há muito tempo que sofro dos olhos
e disseram-me que o pó levantado pelos rebanhos é um bom remédio para a vista.
(Dedico esta fábula de Tolstói ao Sr. António Costa
e a todos os que sofrem com a poeira dos rebanhos)
Era de noite, lembro-me bem como se fosse agora e aqui
O frio cortava como navalha e a malta muda e sem se mexer
como as pedras da calçada
Tinhamos vindo ainda há pouco da casa do João na avenida
Tudo bem alto, ninguém sonhava então que ia entrar num beco sem saída
Ele era meu amigo desde os dias de escola
Gostava de brincar comigo aos índios e aos cowboys
E eu sonhava poder vir a ser a sua companheira
Mas o meu herói quis outra heroína
O meu herói quis outra heroína
Estava deitado sobre o meu colo como Jesus ao colo de Maria
Fechou os olhos e eu tive medo de o perder naquela noite fria
A morte veio, e sem dizer nada ele partiu com ela na montada
E eu fiquei rouca de gritar por dentro mas já de nada serviu o lamento
Ele era tão bonito e tocava viola
No grupo lá do bairro que ensaiava na garagem do Zé
A gente costumava ir juntos ver o sol nascer na praia
Mas o meu herói quis outra heroína
O meu herói quis outra heroína
(Letra e música de Luís Pedro Fonseca)
original - Lena d’Água, Terra Prometida, 1986
Continuamos na aprendizagem da leitura com o mesmo livro do postal anterior - o abc ilustrado - dos princípios dos anos 40 do Séc. XX. Seguem-se mais duas páginas, onde o autor se propõe a arranjar maneira de mnemonizar as letras maiúsculas e as respectivas minúsculas com a ajuda de imagens. Chegados à letra N, a figura proposta para que os meninos se lembrem como se faz um n dos grandes, consiste num nicho com uma figura feminina, entaipado (!) e a descrição é: - Nicho vedado por uma tábua para evitar que os rapazes andem lá por dentro dele a brincar.
Quantas pessoas se lembram que "A vogal a é um centro fonético donde partem duas séries...", que as invogais ou consoantes as há de valor certo e as de mais de um valor ...
...
Que mais me esqueci de que não preciso? Oh invogais mudas que vos calais, regras sagradas que se rasgam, oh rigores da avaliação do respeito pelo que hoje é e amanhã não!
Oh palavras -
"Da palavra que soltas és escravo, a que retens é escrava tua."