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| Freamunde, meados do Séc. XX |
sábado, 1 de junho de 2013
sexta-feira, 31 de maio de 2013
No inferno
A tristeza
que aí vai. Quanto mais se fala, se critica, se comenta, se javarda em
verborreias incontinentes, pior; só mais tristeza!
Eu resumo
o que aconteceu. Aqui há três anos morremos e fomos para o inferno. Estamos
agora a atravessar o campo de todas as expiações, vai cheia a barca e
transborda de lamentos, e nem podemos contar com o barqueiro, demos-lhe duas
moedas e cuspiu nelas.
É assim o
inferno, um cenário velho como a noite onde todos os diabos e figurantes são
eles também almas penadas.
Não nos
enganemos.
Aparece o
demónio velho rodeado da esquerdalhada
sem nome, que se diz bloco, incréu, homofilo, confuso e baralhante,
estupurador indignado, que toca tambor de guerra disfarçado de bater no peito,
que rasga as vestes mais para a orgia do caos
do que para abrir o peito – cheio de podres. Aparece o demónio velho e reúne
a escumalha, faz parte do cenário.
Morremos e
fomos para o inferno. Estamos a atravessá-lo.
Fora de
cena quem não é de cena, choremos e ranjamos os dentes, somos os actores deste
acto, a tragédia vai ser interpretada até ao fim.
JMP
quinta-feira, 30 de maio de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Folhas caídas
voo rápido
uma vidraça a imitar
um céu
choque frontal
acaba logo tudo
dali ao chão é
outra coisa que cai
o chão está
cheio de folhas secas
é primavera
para o ano há
mais?
terça-feira, 21 de maio de 2013
Aldeia Global
Algumas imagens de pessoas a lamber maçanetas foram encontradas neste sítio da net, outras foram mesmo captadas no meu aparelho de TV. Se a moda pega!
Coutada de Paintball
Ao mesmo tempo que se aprova
no parlamento a adopção de crianças humanas por parelhas de gays (um casal é um
macho e uma fêmea), o Presidente da República fala a despropósito de um milagre
da Senhora de Fátima, e isso é que é notícia!
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Contra o (dito) Acordo Ortográfico
Pedro Correia é jornalista e activíssimo bloguista nacional; escreve no DELITO DE OPINIÃO e tem feito um trabalho consistente e persistente para denunciar o despropósito disso a que se resolveu chamar acordo ortográfico.
Já está disponível nas livrarias e tem sessão de lançamento marcada para Terça-Feira, dia 21, a partir das 18h30' na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). Fará a apresentação o Pedro Mexia.
domingo, 19 de maio de 2013
sábado, 18 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Fátima 1922 (1)
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Artigo publicado na revista ABC –
Ano II – n.º97, Lisboa, 18 de Maio de 1922
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A aparição de Fátima
Há quem duvide e
quem acredite, quem discuta e quem se convença diante dos milagres. Há mesmo
quem traiçoeiramente derruía à dinamite os templosinhos que a piedade ergue num
doce alívio de alma que a ninguém faz mal, antes aos crentes faz bem. Foi o que
sucedeu há pouco em Fátima lugar de milagre, no qual têm ajoelhado muitos
milhares de pessoas de todas as camadas sociais numa terna evocação duma lenda
formada, encorpada, consistente.
Como nos velhos
contos do passado… Uns pastorinhos andavam no monte guardando os seus gados,
quando uma linda senhora lhes apareceu e tão formosa, tão fulgurante, tão cheia
de encanto que as três criancinhas se quedaram a olhá-la no seu vestido lirial,
no seu gesto calmo de quem chega do Céu.
Era num dia 13 de
Maio, já lá vão cinco anos e a voz suavíssima da aparição convidara os
pastorinhos a ali irem todos os meses em igual dia. Revelou-se o caso, falou-se
do milagre, acorreram boas almas, apareceram curiosos, e o lugar de Fátima –
onde a Senhora do Rosário surgira diante dos olhos inocentes dos rudes
guardadores de gado – tornou-se um plaino de visões, de evocação, de fé. De
todo o país acorreu gente crédula e gente devorada de curiosidade,
transportaram-se de longe os devotos e os incrédulos, e é certo, pelo menos
assim o afirma o culto espírito do doutor José Maria Proença de Almeida Garrett
que um estranho fenómeno ali se passou em 13 de Outubro de 1917. Saíra um fumo no lugar sagrado como se balançassem
um turíbulo enorme sob a vaga forte da
chuva; e não se acendera fogo, um sol rutilo, forte, que os olhos dos mortais
fixaram sem dor rasgara-se no vasto céu. Os espectadores tinham ajoelhado, nas
almas entrava uma mais firme crença de que alguma coisa de sobrenatural ali se
passava.
Daí por diante,
nos dias 13 de cada mês, acorre ali o povo não só dos lugares vizinhos mas de
grandes distâncias; milhares de pessoas, mulheres, homens, crianças, chegam
cheias de fé porque se têm dado curas estranhas nos devotos da formosa
aparição. Fazem-se peregrinações que já num ano se quiseram sufocar entre
metralhadoras, num cerco de soldados, numa floresta de baionetas, e para se
quebrar a lenda atiraram-se bombas á capela que a piedade ergueu. A
intolerância instalou-se nesta nação onde não se consente que cada um pense
como deseja, a força de um ateísmo pretende impor-se sempre, a quem ama a
religião, numa ferocidade estranha não sabendo ver, os que assim procedem, que
quanto mais se persegue o sobrenatural mais ele se enraíza nas almas.
Que mal faz um
lenda a nascer na orla dum caminho, uma historia doce como as doutras idades,
florescendo como uma roseira brotando dum rochedo adusto? Nenhum mal faz, vai
antes dar às almas consolos que não lhes podem dar as teorias por mais lógicas
atiradas contra a sua fé.
A liberdade pura é
só uma e é para todos como um astro riço e poderoso iluminando igualmente. Não
o entenderam assim e no lugar de Fátima, quanto mais não seja, sagrado pela
prece e pela crença dos milhares de pessoas que ali ajoelham, mensalmente, a
13, numa evocação da doce legenda e pedindo a Deus as curas das suas dores,
passou a destruição brutal como se o dinamite ferindo um templosinho
extinguisse a fé nas almas às quais é melhor tentar convencer do que esmagar.
Redobraram as
peregrinações, depois dos atentados; como se uma corrente de nova energia
galvanizasse os espíritos não houve maneira de deter os crentes. Alastrou-se
por Portugal inteiro a fama da imagem, da visão dos pastorinhos e o que teria
sido um simples incidente religioso, passado entre os devotos, tornou-se num
caso sensacional a que não é possível esconder a importância.
Mais uma vez, no
aniversário da aparição, almas que sofrem ali vão peregrinar sendo de todo o
bom senso não lhes impedir que exerçam o seu livre direito de prece e não
consentir energúmenos a prejudicarem esse enleio dos espíritos que não
encontrando na terra lenitivos para as suas amarguras fervorosamente para o Céu
se voltam.
(transcrição)
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Parteira improvisada
olá Doutor Miguel Brito
com que então fez de parteira
duma gata parideira
e nem precisou de apito
pois logo ao primeiro grito
mesmo sem mão calejada
lá foi salvar a ninhada
que se safou inteirinha
graças à sua mãozinha
de parteira improvisada.
Rodela 15-05-2013
quarta-feira, 15 de maio de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
Animais e Pensões
Um
dia, ia eu com os pescarretas num minibus, pela estrada de terra que circunda a
albufeira da barragem dos Pisões, já para lá de Lama da Missa, quando
encontramos uma manada bovina à nossa frente que seguia no mesmo sentido. Aos
poucos os animais foram-se afastando para os lados, tendo ficado parada uma
vitela barrosã, prenha pela primeira vez, mesmo no meio do caminho, pata
traseira alçada a ameaçar coice, pescoço virado o suficiente para um olhar de soslaio.
Como o autocarro não avançava, a manada reagrupou-se e lá fomos atrás, a curtir
a lentidão e o bamboleio dos bichos. Nesse dia aprendi que os grupos podem ser
conduzidos por um elemento qualquer.
Outra
vez, num percurso entre Pitões das Júnias e Paradela, numa marcha lenta para
fruir das vistas, reparei num cão pastor que encetava uma perseguição ao jipe,
cheio de vontade de se lançar às janelas abertas. O condutor aumentou um pouco
a velocidade e fomos perseguidos pelo cão durante quilómetros. No banco de trás,
rodei o tronco para ver a corrida louca. A cada curva, perdia o cão de vista
mas por pouco tempo. A distância ia aumentando, mas lá vinha o cão a correr
quanto podia, a cortar as curvas por dentro, determinado a alcançar o carro.
Deixei de o ver num troço de curvas apertadas, com dores nos rins pela posição
torcida e muito depois, já para os lados de Salamonde, ainda me voltei para
trás… Ainda me lembro desse cão quando me quero convencer de que não devo
deixar de perseguir um objectivo só porque o perdi momentaneamente de vista.
Por
estes dias os canais de rádio e de televisão põem os ouvintes a dizer, em
directo, o que pensam dos cortes nos subsídios e nas pensões. Também se lhes
pergunta se acham que é com medidas destas que o país resolve os seus problemas.
Quase todos alinham as suas intervenções. O que se ouve nessas espécies de
grupos de discussão é consentâneo, não só entre os mais diversos intervenientes
como com a situação objectiva do país. Assim sendo, está tudo certo, e podemos
dizer que desses programas se pode extrair boas soluções para os problemas que
aí se põem. Logo, os problemas é que estão mal postos, e as perguntas não são
as que interessa ver-se respondidas.
Moral
da história – as coisas são como são; se nos colocamos mal perante uma coisa
qualquer, até podemos obter uma imagem correcta, pode é não ser a imagem do que
queríamos ver.
P.S. Se tem um pássaro preso numa gaiola, providencie-lhe
um pequeno espelho de forma que não se sinta tão só.
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| Pitões das Júnias |
segunda-feira, 13 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
António de Cértima
Texto assinado por António de Cértima, publicado no n.º 115 da revista ABC, de 28/09/1922 – Ilustração de Martins Barata
António de Cértima (Oiã 1894 – Tondela 1983), foi cônsul em Dakar e em Sevilha
Nome de baptismo, António Augusto Gomes Cruzeiro
Maria Dolorosa
(RETRATO DE MULHER EM SEDA CRUA)
Falar dela a esta hora fulva e sob
este céu ardente, copiado das páginas reverberantes de «Il Fuoco», é mal
pronunciar, simplesmente, o alfabeto das suas frivolidades: as suas vinte e
cinco «Tailleurs» e os seus vinte e cinco anos representados em outros tantos
«batons» e bistres – idioma de perfumes e elegâncias em que ela nacionaliza as
suas atitudes. Por isso, a despeito dos magnetismos cerúleos com que a evoco…;
a despeito da febre de meus nervos de Outono onde ela se atulipa com passos
rítmicos de folha seca, eu apenas sei repetir, aqui, aquela fotografia
contorsiante em que uma vez a revelei sobre a seda crespa de minha
sensibilidade – uma seda crua, com relevos neuróticos, de onde a Duse cortou os
seus vestidos…
………….
- La
«Douleureuse»! A sua vida é um livro mas um livro raro, com páginas de Wilde e
Soror Mariana, sem «vient de paraitre» nem editor: é um livro por editar. A
capa deste livro, «brochée» por dentro a inéditos de Camilo e folhas aliciantes
de begónia, é, à nipónica, de um tecido original, com ramagens berrantes de
paixão… o tecido do seu corpo – tapeçaria plástica dos tecidos das anatomias
requintadas de Paris. O seu corpo é, pois, uma capa rara com um desenho a
sanguínea – a sua boca, tirada em papel «couché», o «couché» da sua beleza.
António
Soares deformou-a para a capa de uma edição plagiada com talento: a «Leviana»
de António Ferro. Mas ainda assim a sua boca não se perdeu cm o roubo de tintas
do pintor. Continua posta no seu corpo, sortílega, inatingível, suprema, como
precioso ex-libris de fascinação a etiquetar toda a sua vida – esse livro cujas
folhas intactas, por abrir, eu rasgo agora delicadamente com o corta-papel da
minha amizade.
Tenho aqui um maço de cartas-programa, formato teatral, bilhetes, pensamentos, retratos, e alguns dos seus artigos inéditos, destinados aos jornais onde colabora, - enfim, toda uma argamassa de jornalismo e arte em que ela se tem publicado para mim em folhetins, no folhetim branco do seu corpo! E agora, como em todos os intervalos da minha febre, como sempre, eu, encostado na «maple» doce da sua lembrança, leio-a toda nesta biblioteca com que tem guarnecido, com os seus nervos e com os seus dedos melodiosos, as estantes literárias de meu coração de moço. E nesta leitura vai uma tarefa emotiva e contumaz: ando a ver se a foco na objectiva da minha nevrose, a ver se a fixo como quero na minha estesia a fim de a resumir numa epígrafe vibrátil e única – essa epígrafe em que ela viaja pelo mundo, laconicamente, sinteticamente, sem comentários e sem programas, muito senhora de si e de suas tendências singulares, como uma grande página esguia, sem texto, que fosse submetida à censura de Deus.
Tenho aqui um maço de cartas-programa, formato teatral, bilhetes, pensamentos, retratos, e alguns dos seus artigos inéditos, destinados aos jornais onde colabora, - enfim, toda uma argamassa de jornalismo e arte em que ela se tem publicado para mim em folhetins, no folhetim branco do seu corpo! E agora, como em todos os intervalos da minha febre, como sempre, eu, encostado na «maple» doce da sua lembrança, leio-a toda nesta biblioteca com que tem guarnecido, com os seus nervos e com os seus dedos melodiosos, as estantes literárias de meu coração de moço. E nesta leitura vai uma tarefa emotiva e contumaz: ando a ver se a foco na objectiva da minha nevrose, a ver se a fixo como quero na minha estesia a fim de a resumir numa epígrafe vibrátil e única – essa epígrafe em que ela viaja pelo mundo, laconicamente, sinteticamente, sem comentários e sem programas, muito senhora de si e de suas tendências singulares, como uma grande página esguia, sem texto, que fosse submetida à censura de Deus.
Maria
Dolorosa, é assim a mulher «hors-programme». Poucos a compreendem visto que
toda a gente vem para o tablado onde ela passa como um meteoro ardente, a
faulhar de arte, a horas certas – as horas do censo comum – e ela, supremamente
egoísta e aristocraticamente «aparte», vem sempre fora de horas.
A vida é hoje
um enxundioso monopólio de burgueses; os seus sentimentos, as suas paixões são
outras tantas figuras que o preconceito – o grande novo-rico – mandou gravar
num medalhão servil, em barro das Caldas – as caldas da moral! Ora, Maria
Dolorosa, maquilhada de uma independência «raffinée» tem vindo pela vida fora
lendo esse medalhão no anverso para fugir ao horror da vulgaridade, e de aqui
os seus dois escandalosos processos, escandalosos para os seus leitores
ignorantes: ela fez do Amor um meio e da Dor um fim! Amorosa e santa desta
maneira, tem-se enchido de lágrimas com que escreve a negro o seu drama, esse
intenso drama «só para raros» que o Hamlet da sua boca teima em fazer
representar a sério mergulhando os floretes do seu «charme» no peito dos
espectadores…
Maria Dolorosa é um livro raro, meus
senhores – o meu melhor livro do século XX, aquele em que trabalha
pacientemente com a laboriosa pertinácia de um construtor de séculos.
Ela ficará, portanto, sendo um
século – o século do seu corpo e da sua boca imortal – fechado com requinte, e
a fechos de prata, dentro de um livro – a sua vida- e que eu ainda não
publiquei por não ter acertado com o título… o título do seu beijo!
ANTÓNIO DE CÉRTIMA
P.S. – Chega-me a notícia de que Maria Dolorosa acaba de
casar – isto é, encheu de gralhas o livro da sua vida. Ficará uma edição
errada: tentando o público pela capa mas com as linhas do texto desconjuntadas
pelo dedo ignominioso do marido…
A.
de C.
| O livro de que se fala no texto, com capa de António Soares |
Sobre LEVIANA de António Ferro aqui
Sobre o Mestre António Soares, aqui
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