segunda-feira, 18 de junho de 2012

Antonio Aguilar--Cancion mixteca

Dedico esta música aos meus amigos Janita e Luciano em cuja existência acredito piamente já que nunca questionei a autenticidade de nenhum dos dois.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Amor de Cão





Correio Electrónico 5

Impostos :-(


Filminho recebido por correio electrónico, com o comentário:

                         - Já faltou mais...
                            Lá chegaremos... com calma... com paciência... com serenidade...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ouçam

Parcerias Público Privadas




Todos nós queremos respostas.

Quadra

  
     
                              Coração não vivas triste,
                              Vive alegre se pudéres;
                              Que inda te há de vir à mão
                              O Coração que tu queres.



O que se encontra dentro dos livros!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Tísica


Manuel Ribeiro (1878 – 1941)
Escritor, romancista, neo-romântico, um dos da "geração de 70", foi o mais lido em Portugal durante a década de 20 do século passado, e deliberadamente esquecido a partir da década de 40, assunto que motivou investigação e originou tese de doutoramento.


            A tísica


- Eh, ti Chico, bot’ arriba.
            - Anh, grunhiu um vulto enroscado numa das camas do fundo lôbrego da enfermaria.
            - Espichou uma lá em cima, vamos buscar o esquife.
            A morta estava estendida no seu leito de ferro entre as camas muito brancas das outras doentes. Tinham afastado o biombo de que costumavam cercar os agonisantes, e sôbre a mesinha de cabeceira a irmã da caridade improvisára um pequeno altar com seu crucifixo entre dois castiçais acesos. A irmã resava ao lado da morta já vestida e as outras doentes espertadas cochichavam. Errava em toda a enfermaria um ar asfixiante de penitência e de terror, cheio desse mistério impressionanteque a algidez da morte espalha como uma cinza funebre sôbre as almas.
            A irmã Angela, que sabia do meu amor pela pequenina tísica e sempre me afastara dela com a dureza feroz da sua castidade intransigente, tinha-me dito aquela tarde:
            - Entro hoje de ronda, se quizer fique comigo para a velarmos.
            Sabendo que não escaparia dessa noite, a irmã de caridade num intuito verdadeiramente mais cruel de que piedoso, em vez de me afastar, chamara-me para contemplar a agonia dolorosa da pobre rapariga.
            E lembro-me ainda hoje, com terror, dessa lufada tràgica de desespero, de paroxismo febril, que agitou a minha sensibilidade delicada de rapaz, soluçante ao lado da pequena morta, enquanto a irmã Angela numa imobilidade de estatua, espelhava no seu rosto uma intima felicidade satisfeita por vêr mais uma alma largar para o mundo quimérico da sua crença.
            Sempre bôa, carinhosa e docil para o doente, ela via-o partir quando curado, indiferente às suas efusivas manifestações de reconhecimento, ficando-lhe apenas a consciência do cumprimento dum dever imposto.
            Mas era diante da morte que ela se regosijava. Através da sua crença cega, de fanática, eram almas que ela via estrebuchar no exodo final para os anjos e para Deus. Na ânsia de vê-las partir dava-lhes a beijar o crucifixo do seu grande rosário de contas brancas, onde elas se apegassem ao deixarem, suprema libertação, o miserável invólucro, residência temporária no pecado e no sofrimento. A tísica tinha esse rictus de escárneo que mostram as máscaras dos doentes cujas faces emagrecem muito. Os malares salientavam-se-lhe violentamente num tom de marfim velho, apagando-se no circulo roxo das olheiras profundas. Os olhos tinham-se-lhe fechado de per si. Posto que morta havia pouco, tinha adquirido já essa expressão indefinível que a gente vê nos cadáveres que a rigidez inteiriçou, os músculos caídos sem essa tensão que dá a palpitação da vida, as veias deprimidas onde não tumesce já o gorgulho rubrodo sangue, toda a passividade inerte da carne morta, flácida e mole como um trapo.
            O rosto, muito pequeno, não tinha já a figuração quando animado e gazil, e os olhos lhe rejubilavam fulgores vívidos.
            Uma maceração lívida de dor que cresta e padecimento que consome, dava-lhe um ar antigo de noviça que se mumificou nos ascetismos ardentes da fé.
            E luz religiosa das velas bruxeleando ondulações de nave em lausperene, cercando-a duma atmosfera de recolhimento, imprimia-lhe a diafaneidade cerosa das santas, onde como que se vê, como que se palpa essa flutuação do pensamento em que as suas almas andavam vaporizadas.
             Era assim que a irmã da caridade a estava vendo e era assim que eu a via, sugestionado pela convicção imperiosa e dominadora que irradiava da hospitaleira, cuja figura eu temia e respeitava na sua insexualidade entre divina e humana.
            Parecia mais cumprida, ao longo do leito, o busto informe sob o grande roupão deselegante que a irmã na véspera talhára do seu lindo vestido de percal claro.
            Tinham-lhe cortado o cabelo, e a pobrezinha ocultára-me êsse grande desgôsto que a irmã lhe fizera sofrer, metendo-lhe a tesoura na espessa gaforina das suas madeixas louras.

            Havia três meses que havia chegado.
            A entrada na enfermaria daquele bustosinho galante, que não parecia doente, impressionára com um sabor dôce de curiosidade a minha imaginação indiferente à miséria gemida e à dor arrastada por aqueles corredores do hospital.
            Que o hospital era lindo.
            Do lado norte, varandas cintavam o edifício donde a vista descortinava léguas de campina toda semeada de casinhas brancas dos montes.
            Em baixo, as manchas verdes dos jardins, onde as nespereiras alargavam sombras espessas e limoeiros presos às muralhas brancas, como eras, lembravam ermos de retiro conventual.
            Amámos-nos. O que é o amor nessas idades?
            Eram os idílios futeis da meninice. Capelas de rosas brancas que se toucavam na sua cabecita loura, como halos de místicos noivados.

            Tinham chegado os moços com o esquife.
            Um dêles, aconchegando as sandálias da morta, pegou-lhe rudemente nos pés. Instintivamente, repeli o outro e tomei-a com todo o cuidado por debaixo dos braços, encostando-lhe a cabeça contra o meu peito. No esforço que fizemos ao levantá-la, a cabeça pendeu-lhe para trás, e através das pálpebras , contra a luz, eu vi num fiosito claro, como que um resto de vida, as córneas embaciadas dos seus olhos, onde se não esmaltavam já as radiosas alucinações da febre.
            Colocámo-la como uma grande pétala branca dentro do esquife. Cobrimo-la com o pano negro de veludo. Depois os homens pegando nos braços da tumba puzeram-se a caminho, ao mesmo tempo que eu sentia em todo o meu ser êsse despedaçamento estrangulador das separações. A irmã Angelica colocára-se ao lado do féretro com uma vela acesa. E eu seguia os dois homens no seu passo rítmico ao longo dos corredores, vendo as suas sombras amplificarem-se nas paredes alvas. E sentia uma angustia desesperadora ao pensar que não era já nada naquele cadáver que êles levavam, que era agora deles, e uma espécie de ciume louco e de raiva impotente confrangia o meu coração diante daquele egoismo, da indiferença daquelas pequeninas mãos que se tinham erguido para mim em todas as suas crises de sofrimento da indolência  do seu ser que fremira a tão delicadas sensibilidades e onde eu ainda via a condensação de todos os meus desejos e a alma que eu amara no seu corpo.
            Era a materialidade do meu amor que eu ali procurava, a docilidade do seu espírito convergindo para mim em todas as suas voluntariedades.
            Nas outras enfermarias percebiam-se êsses gemidos abafados da insónia, quando a alma erra pelas alucinações trágicas de nevrose. Sentia-se a agitação dos corpos minados pela doença, que não se revoltam e já não gritam, lassos, envolvendo os nervos numa bainha de indiferença.
            Descemos a escadaria do andar nobre, demos a volta do claustro para onde abriam arcadas que recortavam no alto sectores de céu azul picado de estrêlas e desembocamos enfim no jardim todo cheio de sombra sob a grande solidão da noite fria.
            O depósito era ao fundo num dos recantos do jardim, encostado às paredes da capela do hospital.
            Um dos moços abriu uma cancela de ferro e depois a porta, saindo lá de dentro um bafio a cêra queimada e ar viciado. Sôbre uma banca, envolto numa toalha de linho, a tristeza lívida dum Cristo olhando para a terra com o desalento dos grandes desditosos, ao lado, a mesa das autópsias, esquifes empilhados e um rumor surdo dos limoeiros rapando nas rótulas das janelas. Cá fora a scintilação trémula das estrelas e o silêncio enchendo o grande vácuo da noite…

Manuel Ribeiro

Publicado em:
ABC – Lisboa, 16 de Novembro de 1922
Ano III – n.º 122


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dandelion Wine

      
          A CIDADE FANTÁSTICA

            - Tom – disse Douglas -, promete-me uma coisa, está bem?
            - Prometo. Mas o quê?
            - Embora sejas meu irmão e eu, por vezes, te odeie, conserva-te perto de mim, está bem?
            - Queres dizer que me deixas ir contigo e com os outros rapazes mais crescidos nos vossos passeios?
            - Bem… claro… até isso. O que eu quero dizer é que te não vás embora, hein? Não te deixes atropelar pelos automóveis, não caias de nenhum rochedo.
            - Está claro que não! Mas afinal quem julgas tu que eu sou?
            - Porque mesmo que as coisas corram pelo pior e mesmo que ambos sejamos já muito velhos… assim com uns quarenta ou quarenta e cinco anos, um dia… podemos arranjar uma mina de ouro no Oeste e podemos ficar por lá a fumar barbas de milho e a deixar crescer as barbas.
            - A deixar crescer as barbas! Ena!
            - Como te digo, conserva-te perto e não deixes que te aconteça nada.
            - Podes contar comigo – disse Tom.
            - Eu não me preocupo contigo – disse Douglas. – Preocupo-me é com a maneira como Deus governa o mundo.
            Tom ficou a pensar nisto por momentos.
            - Mas ele está certo, Doug – disse Tom. – Pelo menos tenta.

       
            Ray Bradbury – Escritor, mestre em ficção científica
            22/08/1920 - 05/06/2012

            O excerto acima é do livro A CIDADE FANTÁSTICA
            Título original: Dandelion Wine
            1957
            Editorial Caminho 1986



terça-feira, 5 de junho de 2012

Portugal, Portugal

Ainda estava eu a ressacar da cobertura noticiosa da partida da selecção nacional para o EURO 2012, quando fui atingido por uma notícia mesmo no sítio onde me nasce o senso.
Ontem vi o autocarro da selecção a chegar ao aeroporto, um jornalista atarefado por arrancar mais umas palavrinhas salvíficas aos jogadores todos enfatuados, muito escarafunchosos nas suas cabecinhas contidas entre grandes headphones. Depois, vi o avião a descolar, e entretanto, o tanto que se disse… A palavra Portugal saía a cada dez segundos, entre “os nossos heróis”, Portugal, Portugal, e a bandeira plasmada em todos os suportes, em tantas caras, nas roupas, no avião alvo e penetrante a subir ao céu. Os noticiários abriram com a notícia de que “os nossos heróis” já tinham partido, já voavam, por aquela hora atravessavam pujantemente as alturas, Portugal lá ia, todos nós com o cinto posto enquanto não se apagarem os sinais de luz A repetição da descolagem e Portugal, Portugal, é Portugal, somos nós a dez mil metros de altitude, a novecentos e cinquenta à hora, a temperatura exterior é de menos oito e quando aterrarmos espera-nos a noite e tempo fresco, Portugal. Há um gajo com o microfone na mão – já lá está! Está à espera que o avião aterre; é Portugal a receber Portugal enquanto Portugal espera, e crê, e ama, e sofre Portugal.
 Notícia de última hora, o avião vai aterrar. É de noite fechada mas um potente foco rasga tudo e cresce, cresce… Cresce Portugal, e aterra.
Ainda ressacava da noite mal dormida, da insónia povoada de pessoas com a cara desfigurada por vermelho e verde, de joelhos no chão molhado por lágrimas copiosas. Gritam e batem com as mãos no peito. Das bocas com os dentes por tratar sai Portugal, Portugal… É Portugal a rebentar os joelhos no asfalto, a rebentar o peito com sentimentos vendidos em kit no Continente, a rebentar a boca com refrigerantes gaseificados, açucarados, coloridos, é Portugal.
Ainda ressacava, e ouço que as brigadas da GNR e da polícia que mandam parar os carros, poderão ter a cooperação de um agente das finanças para reter as viaturas de quem tiver dívidas ao fisco. Ao mesmo Estado que nunca paga a horas e gasta à tripa-forra, sobra-lhe para pagar a quem nos trave a marcha, nos tire da estrada com um gesto resoluto e nos lembre do que fizemos de Portugal.
Ai Portugal, Portugal  £#?%$'"@?????

Jorge Palma | Portugal, Portugal

sábado, 2 de junho de 2012

Dito 30


O casaco:
O casaco é a peça de roupa que as crianças devem vestir quando a mãe tem frio.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Camilo C. B. atormentado


Da Revista ABC - n.º 83 - Lisboa, 9 de Fevereiro de 1922


Transcrição:
 (pretendi fazer uma transcrição exacta do texto, tal com publicado)


Uma atormentada carta de Camilo

Diante destas dolorosas letras que o mestre da literatura traçou não há escritor que  a possa comentar. É o génio ferido de dôres cruciantes de alma, ancioso do sossêgo que só a morte lhe devia dar, se é que lá longe não seguem ainda a vida desolada dos filhos, as amargas lutas dos netos.

Minha filha
Previ que me darias peores noticias da tua molestia. Estamos em contínua tróca de más novas. Agora, assim será até ao fim. Os dias correrão connosco ao eterno descanso, mas sempre e cada hora mais acerbos. Entramos na agonia moral. Eu vou direito à loucura; mas, por ora, conheço-me no uso pleno da rasão para a ver. Em mim contribue tudo: tu morta, dois filhos perdidos, e eu pobre, estupido, inutil. Eis aqui. Vou talvez embora no domingo, se receber o dinheiro que pedi ao M. Mor. Precizo de aproveitar as minhas tristes horas ao pé de ti, e sentir-te.
A separação só podia fazel-a a campa. Mataste-te, filha, com os teus descuidos. Pensaste que havias de submetter a natureza á tua vontade.
Cancei-me de te pedir em meu nome e dessas creanças que te alimentasses como doente. Nem um dia de treguas deste ás exigencias impreteriveis de uma doença de figado que só pode ser debelada pela dieta e pelos meios da medicina . Agora, ahi está. Nem medico tens que te diga rudemente que morres por que queres.
O que o visconde diz a respeito do Jorge já eu sabia. Não há nada que fazer a esse infeliz. Seide foi a desgraça d’elles, e o Manuel, com o seu funesto exemplo, acabou de os empeçonhar. Oh! Como os nossos nomes hão de ser amaldiçoados por elles, e pelos seus descendentes!
A Amelia escreveu-me hoje em resultado de eu, em uma destas horas de inferno, lhe ter exprobado a sua impostura, o seu egoismo, e as suas rasoens de subordinação ao marido. Quem lhe perguntava se estava subordinada? Como cahíu na consciencia da sua culpa, disse-me que queria vir ver-me com o marido.
Eu disse-lhe que não viesse porque me ia embora. Vinham exacerbar-me.
A’s vezes assaltam-me impetos de ferocidade, que se tivesse inimigos, apunhalava-os.
Sinto a necessidade da familia e da paz que tanta canalha gosa; e vejo-me sem ninguém. Tu és uma moribunda, que me fazes chorar, e cada lagrima que se chora nos meus annos é uma porção de cerebro que se desfaz. A presença dos filhos são dous acusadores mudos que me perguntam: «Que fez o pai destes dois infelises filhos dos seus vicios? Com que coração nos deixou chegar a esta idade sem que saibamos o que sabem os filhos dos mais miseráveis proletários? Por que não nos salvou da miséria , e nos affogou na torrente suja da sua vida?» Que heide eu responder-lhes? Curvar a cabeça deante de Deus que assim o quiz.

Trevo da sorte



O que se encontra dentro dos livros!





quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pulsão


João Silva Tavares, poeta, dramaturgo e escritor.
24/06/1893 - 03/06/1964


O papelinho acima, com cerca de 2cm x 5,5cm, caiu-me de um dicionário de 1911 enquanto o consultava. Pode ter servido para quadra de S. João e ter andado num pauzinho, espetado num manjerico, qual bandeirinha. O que lá está escrito, traduz uma pulsão; uma das muitas que o amor induz - tolices!

Mais sobre Silva Tavares aqui
e aqui

HOP por Laura Costa

                   Publicidade em Portugal no início dos anos 20 do Séc. XX


               Texto:

                    Considero a pasta “Hop” como uma das melhores e mais agradáveis de que tenho feito uso e por isso continuo a utilisa-la

                                                                              Laura Costa

Mais sobre Laura Costa aqui

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Camilo e o Amor

Artigo da revista ABC, n.º 48 – Lisboa, 16 de Fevereiro de 1922

Legenda da fotografia – Visconde de S. Miguel de Seide, filho de Camilo.

Transcrições

(Texto principal)

Ana Placido, atormentada pela dôr de tanto amar, corridos os anos sôbre a tortura da existência em comum com o genio do romance, perdido o encanto que a contrariedade do mundo dava à sua paixão, entregara-se toda a êsse amôr de mãe por dois filhos que a natureza se comprazia em tocar com a degenerescência do pai, talento máximo, progenitor de taras e de extravagancias.
Ela ia vivendo a sua existência, triste, desolada, vendo tudo a ruir à sua volta: o marido pobre e cego, um filho louco, pintarulando nos livros do pai os seus bonecos, ardendo em fúrias, o outro doente, sem vigor, fazendo-a sofrer imenso e exclamar:
            - «Já agora nada mais falta ao meu triste coração!»
            Morreu-lhe uma netinha, a filhinha dêsse Nuno, que era 2.º visconde de S. Miguel que, como se êle fosse uma creança, acalentava de longe, da casa de Barjona de Freitas, em Benfica, onde Camilo esperava ainda curar-se da cegueira.
            E ia, a pobre mãe, soluçando as suas saudades, mais dos filhos que do passado de amor, ao lado do irritado, infeliz e desvairado genio que à sua existência tão romanticamente outr’ora se ligara.


(Caixa de texto)

            Meu filho.
            Fiquei com cuidado em ti. Dis-me se estás melhor e se as feridas tem secado. A vida cada vez é mais triste. Se ao menos tivesses saudade! Vejo-me condemnada a tremer sempre de que a morte me não leve a tempo p.ª te sobreviver. Já agora nada mais falta ao meu triste coração!
            Envio-te uma poesia dedicada ao papá pela morte do nosso anjo! Copiei-a com lágrimas.
            A saudade! a saudade!
            Adeus filho; o papá também está com cuidado em ti. Fallamos sempre a teu respeito.
            Um abraço da tua mãe

A.    Placido.

(Manuscrito)

            A minha neta

            Parecia dormitar tinha morrido
            Pedi que a não levassem no caixão,
            Que a deixassem mirrar e desfazer-se
            Como a flor se desfaz sem podridão

            Teimaram em levarm-a, e eu cingi-a
            A peito que se abriu pela pressão,
            Depois, pude escondel-la, e tenho-a
            No meu despedaçado coração.

                        S. Miguel de Seide

(No fundo da página)

            Carta de Ana Placido para seu filho Nuno, Visconde de S. Miguel