quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ocorrência iv


Agapito Silvério, o juiz presidente, demorou algum tempo até perceber que a maior parte do que sentia era autocomiseração. Tinha tido um percurso de vida de sucesso, foi um bom estudante sem se esforçar muito, cedo foi o que queria ser, foi advogado enquanto lhe deu gozo e agora era juiz e gostava. Ganhava bem, nunca tinha tido uma relação estável e fazia tudo para as evitar, trocava de carro por impulso, achava-se bonito…
Agapito Silvério, aquele nome, funcionou desde sempre como uma pedra no sapato mas ao mesmo tempo como o seu cartão-de-visita; incontornável. Até os professores mudavam o tom de voz quando o pronunciavam. Enquanto advogado habituou-se a reconhecer o peso das palavras e aprendeu a força da peculiaridade do seu nome.
Agora, naquela sala cheia e insuportavelmente bafienta, sentiu-se esmagado pela maior solidão, o sentimento mais forte que já experimentara. Certo de que eram influências da leitura das peças do processo, viu-se num momento no lugar do Cristo. Um estranho momento fora do tempo em que toda uma eternidade coube no curto gesto de voltar a pegar no pedacito de pão. Lá do alto, deixou cair o olhar sobre aquela multidão e percebeu que era dele que todos esperavam alguma coisa, apesar de tudo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Global chair

     Cadeira global (*)


     (*) A cadeira global é construida a partir de duas paletes de madeira usadas. A cadeira será tanto mais global quanto mais viajadas tiverem sido as paletes

     Mais fotos aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cromos 4

     Sociedade Industrial dos Tabacos de Angola, Lda.
     Anos 30 do Séc. XX ?
     Actividades desportivas e seus praticantes



sábado, 8 de outubro de 2011

Ocorrência iii

O presidente do colectivo contava com uma grande prelecção e ficou claramente desnorteado quando ouviu o delegado do ministério público, numa só frase pronunciada discretamente, sem gestos, sem modelação do tom de voz nem outras peias, simplesmente como que só a informar:
- O ministério público acompanha formalmente este processo, faz votos para que siga criteriosamente a tramitação legal e não contribuirá para o seu apodrecimento.
Houve um advogado da acusação que chegou a manifestar algum incómodo com aquelas palavras e que logo de seguida não se importou de ficar feliz por ninguém ter reparado nisso. Todos os outros advogados fizeram trejeitos indecifráveis, uns com os olhos, outros com a boca ou com o franzir da testa, em qualquer caso sem dignidade para registo.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Do arco da velha 5

Folheto promocional do AUSTIN EIGHT
20 páginas
Impresso em Birmingham - Inglaterra, por James Cond Limited
Maio, 1939






quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Adélia, de novo.

Adélia, uma fotografia de Adélia, sem mais, foi a a primeira publicação do meu blogue em 10 de Janeiro deste ano.
Hoje, depois de ler Adélia do Rui Rocha no DELITO DE OPINIÃO, um texto a que voltarei com certeza muitas vezes, não pude deixar de a trazer de novo.
É uma pequena escultura minha, com cerca de 26 cm de altura em argamassa calcária.







quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ocorrência ii

Já o delegado do ministério público pedia a palavra há algum tempo quando o juiz presidente deu conta disso; tinha estado ocupado a roer um bocadinho de pão, baixo e duro, enquanto os olhos percorriam aleatoriamente as capas dos dossiês no cimo da imensa pilha que lhe servia de secretária. Levantou-se num salto, pousou num gesto reflexo o pão e com os curtos bracinhos caídos ao longo do corpo, baixou o olhar numa evidente reverência e disse com uma vozinha sumida:
- De direito do Sr. Doutor e para o bem deste tribunal, faça o favor, Sr. Doutor.
A sala continuava a encher e a atmosfera já tinha pouco de respirável, as paredes escorriam o ressoado, todos ccomiam ou já tinham comido um pouco de pão, havia uma espécie de malgas com vinho a passar de mão em mão, e apesar de tudo reinava o silêncio!

Dito 13

Quem ao longe vai casar, ou vai cego ou vai cegar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ocorrência i

- Meritíssimo, não é suposto Ele estar entre nós?
- Mas quem o mandou falar, quem é você?
- Vim trazer as refeições, são 12 euros.
- Ponha aqui ... e o que é que estava para aí a dizer…
- Que nem tudo se vê com os olhos, ao acordar, como os poderes de que está investido…
- Ponha-se lá fora, respeito, respeito…
    … que raio! Pão… e … e vinho! Quem pediu isto?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ocorrência

... chegados aqui, meus senhores, minhas senhoras, que querem que lhes diga?
Então ... se Deus não existe, não é??? ... parece que não há maneira de aparecer!!! ...
Como sabem, isto não pode ser um julgamento à revelia; se não..., que chatice, fica tudo na mesma!
Se Deus não existe, o Homem terá que ocupar o seu lugar. Vamos lá, vamos lá...

Cromos 2

     Cães
     Clube Pirata
     50 cromos


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ISO

ISO 9001 2000

Artigo não conforme data e assinatura Controlo de Insectos Registo de produção por máquina NOTIFICAÇÃO Garantia da qualidade qualidade total iso Classificação Produto em Quarentena Ficha de calibração REGISTO DE RECLAMAÇÃO…  evidências OK registos CONTROLO DE DOCUMENTOS DA QUALIDADE Instrução de trabalhoManual da Qualidade FLUXOGRAMA aprovação das tabelas de preços reunião de departamento MANUAL DE PROCEDIMENTOS ficha de segurança descrição de funções Sinalética Reunião anual… instruções de utilização AUDITORIA documento interno procedimentos matriz de contingência FICHA DE MANUTENÇÃO fórmulas de fabrico Procedimento de higienização do fardamento implementação Procedimento de Libertação de lote Infra-estruturas Plano de manutenção MELHORIA CONTÍNUA registo de máquina DATA E ASSINATURA planta de emergência prova de pressão MEDICINA NO TRABALHO monitorização Controlo do prazo de validade embalagem Caderno de Encargos rótulo FICHA DE PRODUTO licenciamento industrial OBJECTIVOS Registo individual de produção diária iso  EVIDÊNCIA ficha de viatura Organograma ACÇÃO CORRECTIVA… Nível de amostragem organismo notificado ISO Responsável iso CONTROLO DE DOCUMENTOS comunicação interna backup DEFEITO padrão triagem AMOSTRA lote rotulagem de amostras  Série Diagrama de circulação de pessoas prazo de validade RASTREABILIDADE Diagrama de Circulação de Materiais monitorização contínua aferição  devolução EXPEDIÇÃO calibração REGISTO DE DESPERDÍCIOS… descodificação do n.º de lote ASSINATURA E DATA termo-higrometria Fornecedores autorizados NP EN ISO  Ficha de expedição Registo de viatura avaliação de fornecedores Declaração CE de conformidade Arquivo de amostras Auditoria externa checklist  ORDEM DE TRABALHO verificação da eficácia da acção correctiva Avaliação do Risco contagem Reunião mensal Folha de Obra PROTECÇÃO INDIVIDUAL controlo de existências CONTROLO DE ACESSO matriz de competências LISTA DE MÁQUINASlaboratório certificado ERP relatório… PROCEDIMENTO DE RECEPÇÃO DE MATÉRIAS PRIMASassinatura e data

Não é fado, é aquilo em que a Europa se afunda...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

ness...

     Outra vez, NESS...
     Não largas as latinhas de spray!


     Gráfica e esteticamente nem está nada mau,
     mas estás excessivamente retro, NESS!
     É para chegar à China?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para ness

Para o que te havia de dar, ness?
Sujar as  paredes!
Ai, ai... que feio!
E logo a spray.
Então não devia ser com pigmentos naturais e dados a pincel ou à boneca?
Tiveste o cuidado de ler o conteudo das latas?
Tens a certeza que o agente propulsor não é daqueles proibidos?
E olha, viste onde é que foi produzida essa tinta? É que se veio de muito longe, então esse teu gesto ainda gastou mais petróleo.
Estamos muito desanimados contigo; olha esse teu cabelo, consegues lavá-lo?
Também não podes plantar, ness.
Sabemos que sabes, então?
Vai lá, não faltes à aula de capoeira...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dito 11

     Nem a preces nem a blasfémias lhes dá ouvidos o Mar


     Pesqueiros dos Fóles
     Ericeira

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Dito 10

     As marés e o Tempo não esperam por nenhum Homem


     Pesqueiros dos Fóles
     Ericeira

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

Dito 8

     Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.


     Pesqueiro dos Foles
     Ericeira

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Aos cristãos

De passagem por um dos meus blogues preferidos, ma-schamba, fiquei a ler a mensagem de 01/Set. de JPT - A Europa, hoje - texto de Joseph Ratzinger (hoje Bento XVI), o que me trouxe à memória um recorte do DN de 31 de Maio de 2004. É um artigo de João César das Neves intitulado "Aos cristãos pode-se!" e cuja actualidade é lamentável.
Trago-vos hoje esse artigo de jornal, também ele ilustrado, mas sem a força da imagem que JPT usou e que não pode deixar ninguém indiferente.
É o meu contributo para o convite à reflexão sobre a forma com os cristãos são vistos e se vêem.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Raça

O Sr. Presidente da República possui um mapa social segundo o qual nos enquadra a todos nós e que paulatinamente vai desvendando. Até à data é um mapa simples mas temo que se venha a complicar, podendo até vir a necessitar de um grupo de trabalho, de uma série infinita de inquirições e mesmo de uma polícia.
Como aprendeu na escola de Sócrates, que à falta de qualquer outra coisa se pode sempre dizer que foi um grande político, as necessidades são transformadas em questões de justiça. Assim, sendo a maior necessidade do momento o saque de dinheiro, a todos nós, sermos sacados passou a ser uma questão de justiça. E de que se lembrou? Da reintrodução de impostos sobre as sucessões e as doações!
O nosso querido Presidente da República, que não é bem a mesma coisa que o nosso querido chefe, acha que no momento de se receber aquilo para o qual não se contribuiu, é de toda a justiça que se reparta com o Estado. Portanto, parte do princípio que os filhos do agricultor nunca o ajudaram nos trabalhos do campo, que nunca um filho chegou um balde de massa ao pai que construía a própria casa, jamais a filha da costureira chuleou as bainhas da obra da mãe, em tempo algum os filhos do pescador o ajudaram na faina, ninguém depois de se ter licenciado em engenharia ficou a trabalhar na fabriqueta dos pais com um ordenado de merda, enfim… é então de toda a justiça, não tanto por necessidade, que o filho que herda a casa do pai a tenha que vender para partilhar com o outro herdeiro – o Estado, seja lá o que isso for!
Porque intui que quem herda não contribuiu para a construção da coisa? Por motivos de duas ordens:
- A primeira: Toda a gente sabe que os filhos desde cedo vão estudar para Lisboa e depois ficam a dar aulas, se metem na política e vão trabalhar para o Estado, ficando a ganhar da fazenda pública em qualquer caso.
- A segunda: Toda a gente sabe que já não há indústria familiar, que a que houver vai fechar, que não há pesca artesanal e familiar, que não há agricultura praticamente nenhuma, que fomos (os portugueses) uns bons alunos de professores prepotentes e pedófilos, e que transformamos o “jardim” num oásis. Não temos canudos de fábricas a botar fumo nem efluentes tóxicos, nem o som enervante de serras circulares – é só serviços, bonito serviço! Também já não se faz costura em casa.
A pouca memória não ajuda a lembrarmo-nos do tutor que nos levava pela mão.
Voltando ao mapa social, como os livros nos ensinam, é muito difícil detectar todas as peças do património de um indivíduo; daí que eu tema as infindáveis inquirições, a nova polícia, as provas de vida, impressões palmares (para ver se há calos) e coisas que a minha imaginação não abarca. É muito difícil também prosseguir com o saque ao povo comum – podemos estar já muto para além dos limites. Repararam ou passou despercebido?
Povo comum.
No discurso da festa do povo, foi repetido e repisado: - Povo comum! Taxe-se então nas sucessões e doações.
Povo comum será então aquela pequeníssima percentagem de quem não tem eira nem beira nem casa mesmo que hipotecada. É estranho que o termo “comum” seja aplicado à parte mais pequena, mais estranho é que seja a propriedade a definir distinções no povo e mais ainda que defina seja o que for em matéria de justiça.
No mapa social que o Sr. Presidente vai desvendando aos poucos, temos então no fundo o “Povo comum”, depois o “Povo” e depois a “Raça”. De certeza que há muito mais, eu vou manter-me atento, e passar mais tempo no FB.

JMP

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mala de cartão


Uma “mala de cartão” é muito mais um elemento da expressão, do espaço emocional ou das figuras de estilo. Não obstante o objecto existe, mesmo que já muito estragado. Com uma mala de cartão na mão parte-se para um futuro, muitas vezes incerto, mas quem transporta algo consigo tem uma determinação qualquer.

No dia que quis mostrar a minha mala de cartão, fiquei a saber que faz anos que o Chiado ardeu. É uma coincidência como outra qualquer … ou não!

Dito 7


Quanto mais choras, menos mijas.

domingo, 21 de agosto de 2011

Ericeira

              Passeando pela Ericeira durante as curtas férias que lá fiz há um ano, entrei numa pequena capela de porta aberta para a rua. Espaço exíguo e antigo, abandonei o olhar para que o percorresse. A miúdo entravam pessoas, mais mulheres que homens, mais residentes que turistas, que faziam um curto silêncio em imobilidade entre duas vénias com cruzes desenhadas com a mão sobre a cabeça e tronco. Recolhi duas folhas A4 de dois montinhos que se exibiam claramente para esse efeito, e também eu me despedi com um “Sinal da Cruz” levando um joelho ao chão.
                As duas folhas de papel ainda as tenho comigo, são as que vos mostro a seguir. A primeira, numa única página, intitula-se “A face mais bela” e está assinada pelo Pároco Armindo Garcia; a segunda, em duas páginas, intitula-se “O frenesim do bem – (Texto copiado do livro “Razões para a alegria” do P. J.L. Martin Descalzo)”