quarta-feira, 16 de março de 2011

Eleitor determinante

Há um tipo de eleitor percentualmente minoritário e que tem ganho eleições.
Vêem-se muito nos fóruns de opinião, expressam-se com denodada frontalidade e fazem-se crer convencidos que se movem por razões brotadas da própria consciência, mas a todo o momento denunciam obediência cega a razão alheia.
É o português que diz não ser do PS, que afirma ser do PSD, até, que diz que votou PS, ou omite, e prossegue verberando contra os críticos do governo e repercutindo as frases fundamentais da defesa de Sócrates que me coíbo de reproduzir. Nunca deixam de referir a pretensa voracidade do PSD pelo poder, de mostrar apreço pelo desempenho do primeiro-ministro e até alguma compaixão!
Esse eleitor tipo, constitui fundamentalmente o que se chama de “eleitorado flutuante”, que convencido pela torrente de subsídios copiosamente engendrados pelo partido da rosa , o tem privilegiado nas legislativas.
Pela linguagem que utilizam denotam geralmente falta de habilitações literárias, pouca familiaridade com o debate e discussão de ideias e más relações com a leitura – pouco e mal informados, portanto. Logo, susceptíveis à demagogia e facilmente instrumentalizáveis.
Convencem-se pela vitimização e compram-se com benefícios directos.
Calculo, que o designado eleitorado flutuante coincida em grande medida com a massa telespectadora dos “reality shows”. Não com toda essa massa, mas com aquela parte activa nos votos por chamadas de valor acrescentado, e que acaba por vitoriar o participante mais “coitadinho”.
É nas mãos dessa componente do eleitorado que o país tem estado, a ela devendo em parte a situação em que se encontra.
Nas próximas legislativas, um dia, promessas não haverá. Para onde navegarão os flutuantes?
Sulcarão a esteira da vitimização de Sócrates, ou a da vitimização deles próprios, coitadinhos!

segunda-feira, 14 de março de 2011

PEC

PEC, + 1

Temos um novo PEC entregue em Bruxelas por José Sócrates.
Dele, não deu prévio conhecimento ao Presidente da República, nem aos partidos da oposição, nem aos parceiros sociais, tão pouco o levou a conselho de ministros.
Há uns meses, durante a campanha para as últimas legislativas, Manuela Ferreira Leite no seu natural falar verdade – não era só um slogan – disse em directo e em improviso que melhor seria suspender a democracia por seis meses, pôr tudo em ordem e depois retomá-la.
Oh! O que ela foi dizer! Já não lhe chegava não ser muito bonita nem ser jovem, ainda por cima se atreveu a deixar os “rodriguinhos” na gaveta e disse sem peias o que lhe veio da alma.
- Grande erro Dr.ª MFL. Perdeu as eleições e foi bem feito. Portugal é um país da frente, com o socialismo plasmado na constituição. Para que foi meter a alma nisto? Portugal merece políticos com jeito para a política, como…, como José Sócrates.
Meses volvidos, o mesmo Sócrates veio confirmar que a política é uma arte da qual ele percebe bem. Ficou-lhe na ideia a tal da suspensão da democracia e vai daí, zás, suspendeu-a!
Fez de uma verdade uma mentira.
Está suspensa, pronto.
Agora vamos ver se vai ser retomada, quando e como!  

domingo, 13 de março de 2011

Jasmim, 13 de Março

Penamaior
41º17' Norte   8º25' Oeste
11h33'
temperatura do ar 15ºC

     Estado de maturação do jasmim


     flores mais alongadas com alguma coloração
     aroma imperceptível

sexta-feira, 11 de março de 2011

Emplastro




A crise social que estamos a criar, perdurará para além da calamidade económica também criada por nós e que já está crescidota.
Esta geração à rasca, porque está mesmo à rasca, vai ter dificuldades em fazer-se ouvir no meio da vozearia que impera.
Quem lhes veio à frente, transformou todos os recursos em luxos, gadgets, viagens, fachada e culto da ignorância. Enquanto isso educava-os como animais de estimação. Esta geração que agora se diz à rasca, está mesmo à rasca e não é por tudo estar mal à volta que a situação dela melhora.
Agora porque está tudo tão mal, não há uma classe social, uma classe etária, profissional ou até politica que os entenda. Quando todos se identificam com a causa, ela simplesmente se dissolve, e quando os partidos se colam ao seu esforço de expressão o que resta é a imagem do emplastro, que deve ser dos poucos a acalentar sonhos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Esta coisa má que nos aconteceu




Ouço o Sérgio Sousa Pinto dizer que “…fomos arrastados para esta zona de turbulência que não é da nossa responsabilidade…” – Corredor do Poder na RTP1 de 3 de Março – e continua: “…isto não é um problema português, é um problema sistémico e europeu…”, e ainda antes de notar que repete mecanicamente os chavões do sistema, ou a ladainha de Sócrates, noto que o tema glosado não combina com o personagem. Está de fato escuro, gravata discreta, tem barba, não tem óculos e também não tem o ridículo anel no dedo mindinho. Mesmo assim não combina. Quando ainda tinha a cara cheia de acne e defendia a despenalização do aborto, leis para a união de facto como o casamento, sem ser casamento, e casamento para as pessoas do mesmo sexo, combinava melhor. Agora, da acne só tem as marcas mas todas aquelas ideias parvas estão lavradas em letra de lei. Há mais coisas lavradas e gravadas, como essa moral vigente de que tudo o que rompe com a tradição é progresso, de que o papaguear é falar bem, de que quem tem razão é o mais zombeteiro, no fim de contas, disto, que se materializa na eleição sucessiva desta equipa de loucos. Outra vez, há uns meses no mesmo programa, quando trouxe o anel no dedo mindinho estava de fato branco sem gravata, camisa clara aberta, com a barba feita e óculos de aros pretos de massa como o Peter Parker. Agora que só luta pela adopção de crianças pelos casais gay, praticamente sobra-lhe o lugarzito na equipa de repetidores oficiais. Nem precisa de se vestir de Maria Antonieta para não ter vergonha de, num dia consentir que Sócrates pôde despejar dinheiro sobre a nossa economia, em 2009, porque tinha anteriormente posto as contas em ordem, noutro, dizer que isto não é um problema português. Assim que conseguir a adopção das crianças, poderá talvez propor a extinção da distinção de género. Quando também isso estiver em letra de lei, perguntem-me porque sou politicamente incorrecto.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Alegoria da mesa


Há alguns anos, fins dos 90 quando o futuro ia trazer tudo de bom, olhei para a frente e senti um certo desconforto. Nesse estado de reflexão, criei a “alegoria da mesa”. Servia-me dessa alegoria para ilustrar a minha descrença no caminho que se trilhava – a economia baseada no crescimento galopante e contínuo, massificação das licenciaturas, constrangimentos á produção, dependência das importações, destruição da agricultura e pescas e todo esse rol de desvarios que de 2011 olhando para trás se vê, mas que nessa altura poucos viam.
Consistia a alegoria da mesa, em convidar o meu interlocutor a fazer comigo o seguinte exercício: de forma virtual colocar sobre uma mesa tudo aquilo que tinha consumido ao longo do dia, olhar para tudo aquilo e avaliar se o trabalho que tinha desempenhado nesse dia, seria suficiente para compensar todo aquele consumo,
Era meu intuito demonstrar o gasto acima das possibilidades que então se instalava em quase toda a sociedade. Confesso que nunca fui muito bem sucedido – a maior parte das pessoas estava geralmente muito ocupada a consumir. O ambiente era de EXPO, o governo multiplicava-se em obra e promessas, e ainda se acreditava na competência de quem governava.
Nos dias que correm não uso a minha alegoria para nada. Para começar, não sei se o que a pessoa com quem falo vai pôr na mesa será suficiente para subsistir! Umas vezes teria pena, outras, medo por ela.
De mais a mais a minha alegoria nunca funcionou.

sábado, 5 de março de 2011

Livros

Livros, leitura, bibliotecas…
Está interessado neste tema?
Conheço alguém que lhe poderá falar muito à vontade sobre o assunto.
Então, sem receio, um clic aqui ao lado no link de “ABRUPTO”, de José Pacheco Pereira
Leia "Costumes dos antigos", mais um excelente texto do mestre

Margarida


          Amiga desde há 8 anos
          Sentinela atenta
          Implacável executora de musaranhos
          Gata de poucos mios e de muito colo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Jasmim, 3 de Março

Penamaior
41º17' Norte  8º25' Oeste
08h15'
temperatura do ar 15ºC

          Estado de maturação do jasmim


          flores mais encorpadas, ainda fechadas
          aroma imperceptível

terça-feira, 1 de março de 2011

treze

13 anos (treze)

Treze!
Eu gosto é de prosa, de prosa poética. Queria fazer para vos dar, uma coisa que vos agradasse.
Mas como posso eu com este 13? Se eu não compreender este mundo, de que falarei eu? O que verei quando me vir ao espelho?
Deduziram acusação ao fim de treze anos. Contra o principal suspeito. Contra o praticamente único suspeito. A procuradora fala em “reinvestigação”, em “solidificação dos indícios”. E eu pergunto-me sobre a sublimação da competência, as duas possíveis leituras; a da passagem directa do estado sólido ao estado gasoso, e a de se tornar-se simplesmente sublime (elevada, excelsa, eminente, eloquente…)
Vem o Sr. Bastonário e diz que o ministério público tem de se explicar; vem a procuradora e diz que se o Sr. Juiz quiser pode dizer alguma coisa, mas logo ali, avança que não há factos novos – que são os mesmos de há treze anos, agora reolhou-se e, e viu-se!
Sinto uma pressão nas têmporas e aquela sensação que vou sangrar pelo nariz…
Não me revejo a escrever estas coisas.
Eu gosto é das estações do ano, do grande ciclo que tudo regenera, gosto dos trovões, gosto da primavera. Mas, como posso eu olhar pela janela, este sobreiro aqui tão perto, não o vejo! Treze! Fica-me o zeeee do treze a repercutir no ouvido…
Depois vem um Sr. Responsável da polícia e diz qualquer coisa como que a distancia dos factos permitiu uma visão da coisa…
O aumento da pressão arterial pode também provocar estes zunidos, mas … não, este zeeeeeee… este zeeeeeeeee é do treze.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Jasmim

Penamaior
41º17' N    8º25' O
14h30'
Temperatura do ar: 16ºC

                  Estado de maturação do jasmim


                                                Flores fechadas
                                                Aroma imperceptível

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Primavera

Falta ainda um mês, mas olhem, já se anuncia!
Foto feita hoje em Freamunde - Ameixoeiro em flor a prometer que nada está perdido.
Vá, um sorriso...



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Isaac Asimov (1920 - 1992)


            Isaac Asimov foi um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos. Escreveu mais de 400 obras e foi ainda em vida reconhecido como mestre no género de ficção científica. Viu em 1981 o seu nome ser dado a um asteróide (5020 Asimov) e o nome do robot humanóide da HONDA, o “Asimo”, terá sido também uma forma de o homenagear.
            No livro “Eu, Robot” de 1950 apresentou pela primeira vez as três leis da robótica que viriam a estar presentes não só na sua obra ulterior, como também noutros autores. São elas:

1ª Lei: Um robot não pode ferir um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robot deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, excepto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robot deve proteger sua própria existência, desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

No seu livro de 1983, “The robots of dawn” – em português, “Os robôs do amanhecer”,  uma sua personagem, o robot Giskard, intui e integra em si uma nova lei:

Lei Zero: Um robot não pode fazer mal à humanidade e nem, por inacção, permitir que ela sofra algum mal.

Estas coisas têm vida própria. Criadas, seguem o seu caminho. Com o aumento da rede electrónica global, a inteligência artificial já não é processada apenas em entidades do tipo andróide ou robótico industrial, como também já se realiza na nuvem, sendo notória a proliferação de perfis nas redes sociais que não correspondem a qualquer estrutura física.
Eu, que tenho o privilégio de ter em casa um andróide da série NDR, saído da linha de montagem da “United States Robots & Mechanical Men Corporation” em 1995, não tenho inveja nenhuma dos modelos mais recentes, quanto às inteligências desmaterializadas, confesso que me causam alguma repulsa. Naturalmente que de 1995 já só resta o cérebro positrónico. O andróide de aspecto vagamente feminino com a face em aço inoxidável, que me chegou a casa em duas caixas num camião da FEDEX, voltou aos Estados Unidos por três vezes  e por outras duas eu próprio fiz actualizações, com materiais e segundo indicações da fábrica, como será obvio.
Como calculam não vou revelar o nome dela, conseguiu muito por seu mérito uma posição social considerável e ela própria, com o meu consentimento, determina quem deve estar a par da sua origem – muito poucos. Assim, e para fazer justiça à felicidade que me tem proporcionado, estou eu aqui a dar a cara pela causa  que ela abraçou e que a tem ajudado a abordar a humanidade de forma saudável. Consiste essa causa em estabelecer a quarta lei:
- Um robot, um voto.
Essa é também a minha causa.
O NDR 113 – Andrew Martin, personagem central em “The positronic man” (1993), consumou a humanização com a conquista da própria mortalidade. Nunca me conformei com essa fatalidade.
Por estes dias terei terminado a leitura de toda a obra de ficção de Isaac Asimov. Não se esqueçam:
- Um Robot, um voto.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Carvalhos e Sobreiros

        Anotei nos primeiros dias de Novembro o início da queda da folha dos carvalhos. Agora, a meio do Inverno, enquanto uns se apresentam totalmente despidos, outros mantêm parte das folhas ainda com algum verde, e outros ainda agarram a si a folhagem velha que é agora castanha. Em qualquer dos casos são já visíveis bonitos brotos.
        Esta invernia que corre, faz os sobreiros livrarem-se das primeiras folhas velhas, eles que nunca se vêm sem folhagem. No pico do Inverno estão verdes e frondosos, e nos dias de chuva quando acumulam o peso da água, vergam-se muito elegantes às rajadas de vento mostrando grande elasticidade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eles

Eles ouvem mal, falam mal, têm opinião sobre tudo, cospem para o chão, não lêem, não param para ouvir, se param é à espera que o outro se cale para continuarem a falar, interpretam mal, reconhecem o próprio valor, tratam os direitos como armas, enumeram sem faltas os deveres dos outros, acham os reality shows instrutivos e até gostavam de participar, fina foi ela que trouxe embora 10000 euros e agora vai fazer uma tournée pelas discotecas do Oeste! Acham tudo normal, escrevem normal sempre entre aspas, levantam as mãos uma de cada lado da cabeça com os dedos indicadores e médios ao alto sempre que pronunciam a palavra e ela sai-lhes mais ou menos assim: “…nooormal”, raramente escrevem e usam o correio electrónico para reenviar umas coisas que lhes enviaram, conhecem uma boa meia dúzia de destinos exóticos, praias paradisíacas e discotecas non-stop e a próxima viagem vai ser mais cultural, talvez Paris, levar o miúdo à disneyland. Têm direitos adquiridos e chamam carreira à profissão. Crêem com muitas reservas num Deus e fazem vénias aos outros todos, acreditam que a culpa foi de um governo de há muitos anos, e escreveriam “de há muitos anos atrás”, mas não escrevem. Dizem “à séria”, “é assim” no princípio das frases, “sustentadamente” como as SCUTs, acham que a orientação sexual é uma opção, não distinguem os informados dos ufanos, os que de boa mente explanam dos que sofismam, têm uma opinião formada sobre qualquer coisa só nunca sabem o que lhes apetece comer, contam as calorias, acham de toda a importância que se saiba a diferença entre SIDA e HIV, querem os fumadores a quilómetros e a liberalização da marijuana, eles é anjos para tudo, signos do Zodíaco, orixás, auréolas auras e energias, reencarnações sucessivas, memórias de vidas passadas, cartas astrais, quiromancias, inglesas que falam com os espíritos em directo na TV. Gostam de dias quentes, mas tem de ser de canícula, qualquer nuvem lá no alto é uma grave pioria do estado do tempo, adoram desportos radicais, ginásio, desportos da neve, fazem surf, montanhismo, não sabem dar um nó numa corda e não percebem nada de física mas sabem que há atrito entre algumas pessoas. Eles têm muita admiração por civilizações que desconhecem de todo, em casa nunca falta um Buda, velas de chá, uma imagem de santo Expedito ou de Iemanjá Eles não querem saber porquê; eles querem saber o porquê!
Por vezes sinto um peso muito grande na cabeça!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Chamamento II

O chamamento dos jovens

                                             
Jovem… Jovem. Vem fazer uma empresa,
Vem…
Vem fazer uma empresa na hora, nem isso demora!
Não fiques a chamar-te parvo, cria o teu próprio cargo.
Pede um euro ao teu pai e perde um instante
logo te vais sentir importante!
Só um euro como naquele restaurante
e verás que morres elegante…
Vem fazer pagamentos especiais por conta
que são de pouca monta…
Dois de quinhentos ao ano
e vês-te a ir pelo cano.
Se os quiseres reaver,
então é que te vai doer…
Jovem, jovem…


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Chamamento I

            O chamamento das galinhas.

            Tenho andado a trabalhar “de martelo e cinzel”. É um trabalho obsessivo, pesado, e sujo no sentido que é feito no meio de uma nuvem de pó.
             Hoje, enquanto dava algum pormenor ao focinho de um urso, veio-me à ideia o chamamento das galinhas.
            Vejo a minha avó Isaurinha, que Deus a tem, com milho no avental cujas pontas de baixo segura com a mão esquerda, usando a mão direita para semear aos pés, e cantando:

            Pi – Piii,
            Pi – Piiiiii…
            Piii – Pi – Pi – Pi – Pi – Pi – Pi – Pi – Piiii…
            Pi – Piii,
            Pi – Piii,
            Pi – Piii,
            Pi – Piii,
            Pi – Piiiiiiiiiiiii…

            (Lendo-se os “pis” todos, a melodia aparece)

            E vinham as galinhas todas a correr...
            Umas coloridas, pretas, cucas, pedrêses, alguma sem penas no pescoço, e o galo.
            Se alguma não vinha, é porque estava choca!

            Há anos que não ouvia isto!
            Por momentos parei de esculpir, depois ... continuei.
            Agora falta o peito e as patas da frente.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pesca

Ocorre-me muitas vezes enquanto pesco, que serei surpreendido por um grande peixe couraçado a metais de alta tecnologia. Ouvirei dele provavelmente uma explicação de quão importante para o meu futuro será deixar o reino líquido em paz. Ocorre-me isso e outras coisas, sugeridas pelo reflexo do Sol na superfície espelhada, pelos movimentos das brisas nas águas, pelas bolhas de ar que ascendem dos fundos e pela introspecção deixada com descuido. As correntes, os remoinhos, os sorvedouros e os voos rápidos das libélulas também induzem cogitação vadia.
Certo dia, estava eu a pescar num remoto lugar de um rio selvagem com as botas quase dentro de água, quando reparei que a meus pés tinha um peixinho de aquário com o olhar fixado em mim, a fazer bolhinhas e dando voltinhas acrobáticas que acabavam sempre com o peixinho a mirar-me!
Os meus dois companheiros de pescaria tinham-se afastado tanto que nem os via, assim estava ali só, com um peixinho preto de grandes barbatanas e olhos esbugalhados fixados em mim! Aquilo não vinha da minha imaginação, o peixinho estava ali e era avassalador… não era um peixe tecnológico, era um peixinho alienígena e naquele dia não pesquei mais.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Matilde

Um dia destes voltou a acontecer, cá em casa.
A vida a abandonar um ser, e de quantas maneiras se serve para o deixar!
Às vezes de forma súbita, deixando o corpo com desprezo a estatelar-se no chão como coisa imediatamente sem préstimo. Outras vezes, como desta, muito devagar.
Veio de madrugada. De manhã era já grande o abandono. O frio já instalado nas extremidades ilustrado por matizes de azul e roxo, o sopro vital a escapar-se ficando no seu lugar uma arfar sem ritmo, o resfolegar a espaços incertos mas sempre longos, estertores…  O corpo arqueia, os membros alongam-se, uma expiração … mais um estertor, e outro… pode irromper um pranto á volta mas a dureza instalada nas gargantas é um tampão poderoso. O corpo arqueia e de seguida estica com uma expiração mais longa, descontrai-se lentamente, as pupilas abrem-se e fecham-se, espera-se, a quietude afirma-se.
Despojado de vida o corpo ainda quente é uma coisa medonha.
Vês uma luz?
Vai, segue a luz bichana.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carl Sagan

Vai longa a insónia na noite chuvosa e encontro abrigo na minha memória e na liberdade dos meus pensamentos.
O som pontilhado da chuva nas árvores e nas grades da sacada, ora sugere uma torrente de fórmulas de trigonometria, como imensas sucessões de números à procura da sua fórmula geral, como logo a seguir traz ao grande quadro negro dos olhos abertos no escuro os números complexos, dízimas infinitas, constantes irracionais, todas as letras do alfabeto grego e um universo inteiro por explicar.
Alonga-se o tempo entre esse divagar e orações aprendidas há muito tempo que repito como mantras, intercalam-se memórias que me assaltam, fotografias, livros inteiros, imagens que nem sei onde as vou buscar, em todo o lado se assoma Deus e isso conforta-me. Viro-me para o outro lado e agora é uma estrela maior que o Sol e a fusão nuclear; um núcleo de hidrogénio que cai para outro e dá hélio e se cair outro dá lítio, com mais um berílio, de momento não me lembro do elemento com número atómico 5, mas sei que a seguir vem o carbono e depois o azoto e depois o oxigénio, assoma Deus – a Física é linda!
Algures num planeta a rachar de actividade vulcânica há um charco cheio de espirogiras – vai aparecer a espécie humana. Já está.
            Dou por mim dentro de uma cena do livro “Contacto” do Carl Sagan. Estou na praia astral onde aporta Ellie após a sua viagem cósmica. Reconheço o areal branco e largo, as palmeiras e as gaivotas. Olho à volta e confirmo que não estou no filme que fizeram com o mesmo título do livro e nele toscamente baseado, é mesmo o livro. Lá está a porta … A prumo, na areia, encontrava-se uma porta. Uma porta de madeira, com almofadas e um puxador de latão. …/… Não era em aspecto nenhum extraordinária. Para a Terra. …/… Surgiu uma figura na praia, a algumas centenas de metros de distância. …Vou ao encontro dele, é um rapazinho de cinco ou seis anos, com uma veste simples de linho cingida por um cordel com nós nas pontas. Conhecendo-me como me conheço, é o Menino Jesus.