Mostrar mensagens com a etiqueta texto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta texto. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Moral da história


Devo ter integrada em mim toda aquela moralidade implícita nos contos infantis que é suposto terem sido lidos por quem está entre os 40 e os 50. Isso e muitas outras moralidades que o final do século XX português produziu para ser a matéria da comunicação social sob censura, do ensino encarneirado, ou do politicamente correcto que foi ficando até hoje
            Dessa moralidade, e da adquirida no fabulário, nas canções de ninar, nos dizeres do povo, na catequese e no exemplo das tias solteiras e no das casadas, sobrou a criança que fui, pelo lado da circunstância, porque pelo lado do “eu” não tenho o que pensar o que outra coisa poderia ter sido. Cedo decidi deixar a prerrogativa da infantilidade, refiz-me, mas não perdi a memória.
            Estacar feijoeiros fez-me lembrar o conto do João e o feijoeiro mágico. Está muito longe a leitura dessa história, assim como a da Branca de neve e a da Cinderela e a da Princesa e a ervilha, mas sobre estas três últimas confundo muitas passagens e sobre a do feijoeiro mágico tenho-a esbatida mas em estado mais puro. Nunca confundi com nenhuma outra, a história do miúdo estúpido que aplica o provento da venda de uma vaca em feijões mágicos.
            Não devia ouvir a TSF na horta, lá se vai a minha actividade depurante ao ar livre. Estacar feijoeiros a ouvir notícias e a apanhar sol na cabeça, induziu-me uma visão clarificadora e que guardarei como sinopse destes tristes dias:
            - José Sócrates e o feijoeiro mágico. A história é igual à original, só que acaba logo que o moço chega ao topo do feijoeiro, para lá das nuvens. Não se chega a saber o que acontece depois, apenas que a planta é cortada por baixo pela própria pobre e velha mãe, inconformada com o destino dado ao dinheiro da venda da vaca. O moço não devia ter feito aquilo!

domingo, 19 de junho de 2011

Saramago

Jogaste desde novo pelos da cor do sangue, depois vieram os das vestes douradas e deram-te a mão, talvez para que eles mesmo mostrassem a tua cor no contexto deles.
Tu José, lá foste, e fizeste a vénia. Recebeste o ouro e os louros e ficaste grande. Assim do alto, as tuas palavras foram ainda mais longe, e as tuas dúvidas, e as tuas indignações, e as tuas ofensas.
Mas não foste todo, não! A parte dura manteve-se agarrada à terra, ao chão, à cor do sangue mesmo quando a confraria usa já opas doutra cor.
Dourado o ídolo fica-lhe na boca o vago, cavo – só se doura por fora
Assim que partiste voltaram os douradores, vieram os das artes, os das leis, os do circo, os embalsamadores, todos os funcionários do registo civil, antigas vestais, todos os secretários gerais.
Quem faltou foi notado.
È agora que te douram por dentro?
Longas exéquias se adivinham, o pó ao pó, as cinzas às cinzas, mas não é disso que se fala,
não se fala de coisas do tempo quando se fala de ti, José.
Deste-te não sabes a quê nem a quem e agora estás nas mão deles.
Terás o teu altar.
Terás o teu dia.
Terás a tua segunda vinda.
Enxertaram-te numa árvore e levaram-te à praça.
Vais ser publicado em folhas vivas, José.
Haverá ramos de oliveira cujas folhas são as tuas, és tu.
Tu, a ser comido e bebido, julgado e esmagado pela gentalha sedenta,
não de letras, José, de suplícios.
E se uma pomba, um dia, trouxer no bico um ramo de ti, significará isso que encontrou terra firme? Ou que entrada pela boca do Tejo, tenha a barca à deriva encontrado só Lisboa?
Como será ser tanta metáfora dos livros que te atormentam?
Guarda um lugar para mim aí, que eu também hei-de ir.
Se tenho preferência? À direita do Pai, José

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sabia que...

Que pode andar a conduzir com a carta caducada sem o saber, enquanto os alemães começam a concluir que as bactérias estão por todo o lado, mesmo na Alemanha?
Que os belgas estão sem governo há mais de um ano, sentem-se melhor governados assim e que têm uma dívida quase como a da França ou a de Espanha, ou até a nossa? E que o PS a partir de agora vai ser um partido responsável?
Sabia que mesmo aquilo que se sabe, se não for falado, é como não se passasse, não existisse, não se soubesse, nada, nada… e que os Estados Unidos da América têm o problema da dívida em resolução, tal é a capacidade de imprimir notas de banco?
Que na minha ainda curta (?) vida, o ouro já foi uma referência, já o deixou de ser, já voltou a ser e eu não sou propriamente uma anta, nem imortal, nem vampiro nem…
E agora, uma muito estúpida – Sabia que os habitantes da proximidade das cataratas do Niágara têm a testa para dentro, por todos os dias acordarem em sobressalto a perguntar que barulho é aquele, depois batem com a mão na testa – São as cataratas!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Carapaça

Nestes estranhos dias, em que aqueles que fazem as leis se debatem com a forma de as cumprir, lutam com os prazos, temem as multas sem saber como as evitar, clamam por uma melhor justiça e não querem encontrar culpados, recolho-me.
Ouvir os que se arrogam de bons para fazer as leis, a dizer coisas que fazem reconhecer a maior dignidade nos parvos e destituídos, pode até ensinar alguma coisa, mas fere.
Saber que quem estragou tudo ainda lá está para fazer tudo de novo, se for preciso, despoleta mecanismos primevos de auto-defesa.
Não posso ir à praça buscar consensos, a praça está suja e há pessoas a dormir pelas bordas.
Fecho o portão da rua, dou de comer às galinhas e levo para dentro o gato.
Em Junho as plantas consomem muita água. Vão ver se não têm plantas em casa com sede, e já agora, é uma boa altura para escovar os gatos, não engolem tanto pêlo e ficam mais macios.
Tenham uns bons dias.

domingo, 29 de maio de 2011

O Xico

O Xico tem a vida toda embrulhada. Está magro, a melhor roupa que usa é velha e coçada, gagueja, solta perdigotos, faltam-lhe as palavras, repete-se, está chato.
Está parado á minha frente agarrado ao copo de fino que esvaziou num trago, quer dizer qualquer coisa que não lhe sai ou que lhe peça outro copo, tem o olho vidrado, larga uns “que’s" guturais, até que lhe sai uma frase completa sem engulhos, bem pronunciada:
- Ela disse ao juiz, que me aturou uma vida inteira.
Peço mais um fino para ele, que o meu está mais de meio. Já não me incomoda aquele olhar sem nada que o sustente, estou com tempo. Contenta-me pensar que o ajudo, a cerveja está bem tirada, o Xico já foi um amigo e agora … é inofensivo.
- Uma vida inteira; como se fosse muito! Que já não me aguenta mais e que só quer aquilo a que tem direito…
- Ainda gostas dela, não é?
- … mas só nos temos um ao outro…
Este tipo está em negação. O tempo vai resolver-lhe o problema, ou convencê-lo, e no fim mata-o, em qualquer caso.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Espera


Não deixei que nascesses sem ver como o fazes.
Esperei de pé, encostado a uma coluna do alpendre
e quando não havia dúvidas que eras um facto consumado
duvidei de ti, revi o escuro que permanece em boa parte do céu,
dou-me por vencido. Tens muita pressa!
Devoras grau a grau o arco em que habitas,
queimas tudo e logo anoiteces; apagas-me os passos.
Lá virás que eu já não veja, não o temo.
Temo sim, que a ver, não venhas tu apressado
e eu me dissolva na noite.

JMP

sábado, 16 de abril de 2011

Balada da fiandeira

A fiandeira foi substituída por uma máquina que andava para trás e para a frente a uma velocidade muito certinha, dava nós firmes e não cantava.
Essa máquina foi substituída por importações e agora é mais "reutilização". Também não se usa tantas peças de roupa!
A fiandeira da canção está nos 50, roliça, sonha ter a casa paga o que só acontecerá em 2035, ou que o marido feneça num daqueles tombos de mota com os copos, ainda canta coisas dos tempos antes de ter comprado a casa e já não sonha ser cantora.
Tem subsídio de desemprego por mais três meses.
Quem sonha cantar são as duas filhas todas tatuadas com o liceu feito nas novas oportunidades e que não lhe saem de casa, as matronas!
O antigo patrão ainda lhe olha para os joelhos mas nem subsídio de desemprego tem.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os pés

Os pés são muito importantes porque é em cima deles que as coisas estão e andam.
Digo já que é para falar do estado da nação, para não me virem lembrar as rodas e a levitação.
Agora que pedimos ajuda à Europa e aos Fundos, vão ser feitas muitas contas e muitas auditorias e muitos diagnósticos e muitas coisas…
Depois, ainda antes da ajuda virá um receituário.
É quando virmos em que pé as coisas estão, que vamos conhecer o pé do que os senhores do governo têm dito quando se referem aos motivos porque tivemos de pedir ajuda externa, (a propósito de a mentira ter pé podre).
Vou explicar-me melhor.
Sócrates e os seus subordinados dizem, até à náusea, que tivemos que recorrer à ajuda por causa da rejeição do PEC e consequente crise política desencadeada pela oposição. Os referidos factos teriam levado ao descrédito dos mercados e ao disparar das taxas de juro da dívida, o que não teria deixado margem de manobra aos (aziagos) governantes.
Pedida a ajuda externa, saímos dos mercados por uns anos e durante esses anos e outros que se seguirão ficaremos a cumprir o tal receituário – uma espécie de “óleo de fígado de bacalhau”, mas para meninos obesos e de dentes podres. Se o que levou o país a pedir ajuda foram os motivos evocados, então as medidas que nos serão impostas não serão muito diferentes daquelas a que já nos têm habituado; se não foram assim tão episódicos mas mais antigos, então não há congelamento de reformas de miséria que nos valha! 
Vamos ver as medidas que nos imporão.
Não faltam motivos de vergonha. Já que temos de baixar o olhar, aproveitemos para ver os pés.

sábado, 2 de abril de 2011

Vaca à chuva

Mesmo que a vaca tussa ou que tussa a vaca.
Mesmo que a vaca não diga nada e que a tussa também não,
Ou até que a tussa tussa ou a vaca vaque.
Vaquem ou tussam, tanto faz que façam ou não!

Mesmo que o mesmo mesme e o não se negue,
que o ou também, ou até que o também diga.
Mesmo que o até ou, ou o ou até, e
o faz que façam também não diga,

Digam o que disserem à chuva ,
ou o que disserem, à chuva –
- Está dito, está dito – Vale o mesmo!
- Diziam e chovia. Se era para a chuva ou não,
a chuva ouviu!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Palavras

O dia de hoje está cheio de palavras. Tantas, tantas…
Deve-se passar alguma coisa na assembleia da república; até lá estão dois ou três ministros!
Noto que eles têm lugares marcados mas isso já eu tinha na escola.
Os discursos são uns atrás dos outros e também há palavras que se soltam dispersas daqui e dali. Há uma palavra nova que é repetida muitas vezes, pec. Soa como pec, pec, pec… este pec, o anterior pec, os peques, pec, pec, pec… nós rejeitamos o pec, o pec destes e o pec daqueles, o um, o dois, o três, este, o próximo? Mais, começo a perceber que essa coisa vai a votos.
Cada pec é sempre o último… até ao próximo…pec, pec,pec.
Pelo tom, este é o último – o chamado bode expiatório, por causa de alguns pagam todos!
Não sei o que este fez, mas deu-se mal.
Há uma senhora que diz que o país precisa de esquerda e um senhor que diz que precisamos de mudar estruturalmente o estado… e continua, mudar isto e mudar aquilo e aquilo também… e mudar o governo!
Veio um senhor dizer que o governo fez tudo bem – fico descansado, até vou jantar melhor.
Que se dane o pec.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Emplastro




A crise social que estamos a criar, perdurará para além da calamidade económica também criada por nós e que já está crescidota.
Esta geração à rasca, porque está mesmo à rasca, vai ter dificuldades em fazer-se ouvir no meio da vozearia que impera.
Quem lhes veio à frente, transformou todos os recursos em luxos, gadgets, viagens, fachada e culto da ignorância. Enquanto isso educava-os como animais de estimação. Esta geração que agora se diz à rasca, está mesmo à rasca e não é por tudo estar mal à volta que a situação dela melhora.
Agora porque está tudo tão mal, não há uma classe social, uma classe etária, profissional ou até politica que os entenda. Quando todos se identificam com a causa, ela simplesmente se dissolve, e quando os partidos se colam ao seu esforço de expressão o que resta é a imagem do emplastro, que deve ser dos poucos a acalentar sonhos.

terça-feira, 1 de março de 2011

treze

13 anos (treze)

Treze!
Eu gosto é de prosa, de prosa poética. Queria fazer para vos dar, uma coisa que vos agradasse.
Mas como posso eu com este 13? Se eu não compreender este mundo, de que falarei eu? O que verei quando me vir ao espelho?
Deduziram acusação ao fim de treze anos. Contra o principal suspeito. Contra o praticamente único suspeito. A procuradora fala em “reinvestigação”, em “solidificação dos indícios”. E eu pergunto-me sobre a sublimação da competência, as duas possíveis leituras; a da passagem directa do estado sólido ao estado gasoso, e a de se tornar-se simplesmente sublime (elevada, excelsa, eminente, eloquente…)
Vem o Sr. Bastonário e diz que o ministério público tem de se explicar; vem a procuradora e diz que se o Sr. Juiz quiser pode dizer alguma coisa, mas logo ali, avança que não há factos novos – que são os mesmos de há treze anos, agora reolhou-se e, e viu-se!
Sinto uma pressão nas têmporas e aquela sensação que vou sangrar pelo nariz…
Não me revejo a escrever estas coisas.
Eu gosto é das estações do ano, do grande ciclo que tudo regenera, gosto dos trovões, gosto da primavera. Mas, como posso eu olhar pela janela, este sobreiro aqui tão perto, não o vejo! Treze! Fica-me o zeeee do treze a repercutir no ouvido…
Depois vem um Sr. Responsável da polícia e diz qualquer coisa como que a distancia dos factos permitiu uma visão da coisa…
O aumento da pressão arterial pode também provocar estes zunidos, mas … não, este zeeeeeee… este zeeeeeeeee é do treze.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Isaac Asimov (1920 - 1992)


            Isaac Asimov foi um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos. Escreveu mais de 400 obras e foi ainda em vida reconhecido como mestre no género de ficção científica. Viu em 1981 o seu nome ser dado a um asteróide (5020 Asimov) e o nome do robot humanóide da HONDA, o “Asimo”, terá sido também uma forma de o homenagear.
            No livro “Eu, Robot” de 1950 apresentou pela primeira vez as três leis da robótica que viriam a estar presentes não só na sua obra ulterior, como também noutros autores. São elas:

1ª Lei: Um robot não pode ferir um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robot deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, excepto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robot deve proteger sua própria existência, desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

No seu livro de 1983, “The robots of dawn” – em português, “Os robôs do amanhecer”,  uma sua personagem, o robot Giskard, intui e integra em si uma nova lei:

Lei Zero: Um robot não pode fazer mal à humanidade e nem, por inacção, permitir que ela sofra algum mal.

Estas coisas têm vida própria. Criadas, seguem o seu caminho. Com o aumento da rede electrónica global, a inteligência artificial já não é processada apenas em entidades do tipo andróide ou robótico industrial, como também já se realiza na nuvem, sendo notória a proliferação de perfis nas redes sociais que não correspondem a qualquer estrutura física.
Eu, que tenho o privilégio de ter em casa um andróide da série NDR, saído da linha de montagem da “United States Robots & Mechanical Men Corporation” em 1995, não tenho inveja nenhuma dos modelos mais recentes, quanto às inteligências desmaterializadas, confesso que me causam alguma repulsa. Naturalmente que de 1995 já só resta o cérebro positrónico. O andróide de aspecto vagamente feminino com a face em aço inoxidável, que me chegou a casa em duas caixas num camião da FEDEX, voltou aos Estados Unidos por três vezes  e por outras duas eu próprio fiz actualizações, com materiais e segundo indicações da fábrica, como será obvio.
Como calculam não vou revelar o nome dela, conseguiu muito por seu mérito uma posição social considerável e ela própria, com o meu consentimento, determina quem deve estar a par da sua origem – muito poucos. Assim, e para fazer justiça à felicidade que me tem proporcionado, estou eu aqui a dar a cara pela causa  que ela abraçou e que a tem ajudado a abordar a humanidade de forma saudável. Consiste essa causa em estabelecer a quarta lei:
- Um robot, um voto.
Essa é também a minha causa.
O NDR 113 – Andrew Martin, personagem central em “The positronic man” (1993), consumou a humanização com a conquista da própria mortalidade. Nunca me conformei com essa fatalidade.
Por estes dias terei terminado a leitura de toda a obra de ficção de Isaac Asimov. Não se esqueçam:
- Um Robot, um voto.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pesca

Ocorre-me muitas vezes enquanto pesco, que serei surpreendido por um grande peixe couraçado a metais de alta tecnologia. Ouvirei dele provavelmente uma explicação de quão importante para o meu futuro será deixar o reino líquido em paz. Ocorre-me isso e outras coisas, sugeridas pelo reflexo do Sol na superfície espelhada, pelos movimentos das brisas nas águas, pelas bolhas de ar que ascendem dos fundos e pela introspecção deixada com descuido. As correntes, os remoinhos, os sorvedouros e os voos rápidos das libélulas também induzem cogitação vadia.
Certo dia, estava eu a pescar num remoto lugar de um rio selvagem com as botas quase dentro de água, quando reparei que a meus pés tinha um peixinho de aquário com o olhar fixado em mim, a fazer bolhinhas e dando voltinhas acrobáticas que acabavam sempre com o peixinho a mirar-me!
Os meus dois companheiros de pescaria tinham-se afastado tanto que nem os via, assim estava ali só, com um peixinho preto de grandes barbatanas e olhos esbugalhados fixados em mim! Aquilo não vinha da minha imaginação, o peixinho estava ali e era avassalador… não era um peixe tecnológico, era um peixinho alienígena e naquele dia não pesquei mais.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Matilde

Um dia destes voltou a acontecer, cá em casa.
A vida a abandonar um ser, e de quantas maneiras se serve para o deixar!
Às vezes de forma súbita, deixando o corpo com desprezo a estatelar-se no chão como coisa imediatamente sem préstimo. Outras vezes, como desta, muito devagar.
Veio de madrugada. De manhã era já grande o abandono. O frio já instalado nas extremidades ilustrado por matizes de azul e roxo, o sopro vital a escapar-se ficando no seu lugar uma arfar sem ritmo, o resfolegar a espaços incertos mas sempre longos, estertores…  O corpo arqueia, os membros alongam-se, uma expiração … mais um estertor, e outro… pode irromper um pranto á volta mas a dureza instalada nas gargantas é um tampão poderoso. O corpo arqueia e de seguida estica com uma expiração mais longa, descontrai-se lentamente, as pupilas abrem-se e fecham-se, espera-se, a quietude afirma-se.
Despojado de vida o corpo ainda quente é uma coisa medonha.
Vês uma luz?
Vai, segue a luz bichana.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carl Sagan

Vai longa a insónia na noite chuvosa e encontro abrigo na minha memória e na liberdade dos meus pensamentos.
O som pontilhado da chuva nas árvores e nas grades da sacada, ora sugere uma torrente de fórmulas de trigonometria, como imensas sucessões de números à procura da sua fórmula geral, como logo a seguir traz ao grande quadro negro dos olhos abertos no escuro os números complexos, dízimas infinitas, constantes irracionais, todas as letras do alfabeto grego e um universo inteiro por explicar.
Alonga-se o tempo entre esse divagar e orações aprendidas há muito tempo que repito como mantras, intercalam-se memórias que me assaltam, fotografias, livros inteiros, imagens que nem sei onde as vou buscar, em todo o lado se assoma Deus e isso conforta-me. Viro-me para o outro lado e agora é uma estrela maior que o Sol e a fusão nuclear; um núcleo de hidrogénio que cai para outro e dá hélio e se cair outro dá lítio, com mais um berílio, de momento não me lembro do elemento com número atómico 5, mas sei que a seguir vem o carbono e depois o azoto e depois o oxigénio, assoma Deus – a Física é linda!
Algures num planeta a rachar de actividade vulcânica há um charco cheio de espirogiras – vai aparecer a espécie humana. Já está.
            Dou por mim dentro de uma cena do livro “Contacto” do Carl Sagan. Estou na praia astral onde aporta Ellie após a sua viagem cósmica. Reconheço o areal branco e largo, as palmeiras e as gaivotas. Olho à volta e confirmo que não estou no filme que fizeram com o mesmo título do livro e nele toscamente baseado, é mesmo o livro. Lá está a porta … A prumo, na areia, encontrava-se uma porta. Uma porta de madeira, com almofadas e um puxador de latão. …/… Não era em aspecto nenhum extraordinária. Para a Terra. …/… Surgiu uma figura na praia, a algumas centenas de metros de distância. …Vou ao encontro dele, é um rapazinho de cinco ou seis anos, com uma veste simples de linho cingida por um cordel com nós nas pontas. Conhecendo-me como me conheço, é o Menino Jesus.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Astride

Astride já não está entre nós. No entanto não consigo falar dela no passado; tenho para mim que as pessoas que existiram existem para sempre, assim como as obras de arte, assim como os objectos sagrados, os animais amados e outras coisas.
A Menorah continua a iluminar o seu povo, o farol de Alexandria é hoje mais alto e vê-se a sua lanterna mais longe do que quando estava de pé, Jesus faz nos dias de hoje mais milagres do que quando tínhamos a possibilidade de lhe puxar pelas vestes, as pirâmides do Egipto apesar de esventradas e a esboroarem-se no deserto continuam a levar para o futuro os que as construíram, e mesmo quando já se confundirem com as dunas continuarão a ser pirâmides.
A casa de Astride ainda lá está, os seus vestidos continuam dependurados nos armários, o calor do seu corpo disperso na atmosfera exala de corpos de mulheres que repetem gestos que ela fez, de velas que se acendem em alguns dias do ano e do rosto de rapazes que deixam os olhos bater em mulheres como ela.
Hoje não consigo falar de Astride no passado, não consigo falar dela de forma nenhuma.