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sexta-feira, 10 de abril de 2015

A letra N


          Continuamos  na aprendizagem da leitura com o mesmo livro do postal anterior - o abc ilustrado - dos princípios dos anos 40 do Séc. XX. 
          Seguem-se mais duas páginas, onde o autor se propõe a arranjar maneira de mnemonizar as letras maiúsculas e as respectivas minúsculas com a ajuda de imagens.
          Chegados à letra N, a figura proposta para que os meninos se lembrem como se faz um n dos grandes, consiste num nicho com uma figura feminina, entaipado (!) e a descrição é:
          - Nicho vedado por uma tábua para evitar que os rapazes andem lá por dentro dele a brincar.



Não brincar no nicho!

abc Ilustrado





          Quantas pessoas se lembram que "A vogal a é um centro fonético donde partem duas séries...", que as invogais ou consoantes as há de valor certo e as de mais de um valor ...
          ...
          Que mais me esqueci de que não preciso? Oh invogais mudas que vos calais, regras sagradas que se rasgam, oh rigores da avaliação do respeito pelo que hoje é e amanhã não!
          Oh palavras -

     "Da palavra que soltas és escravo, a que retens é escrava tua."

(à página 89 do mesmo livro)







quinta-feira, 12 de março de 2015

A CIDADE DO SOL - Livro



Romance Metapsíquico

Pelo Major Sarmento de Beires       


                            ***                         
   
        « … o maravilhoso, chamado ao tribunal da fraca razão humana, dá de si um encadeamento de absurdos. Nós não sabemos nada. Vivemos e morremos materialmente. É necessário que apareçam estes meteoros de deslumbrante clarão, para desviarmos os olhos das mesquinharias que nos rodeiam, e acreditarmos que há grandes segredos, acima do entendimento do homem ordinário…»


        In Mysterios de Lisbôa, livro IV, de Camilo Castelo Branco.

 ***

        «A nossa época é horrível porque já não cremos, - e não cremos ainda».


         In Memorias, I volume, de Raul Brandão.






INTRODUÇÃO

         Eclipsadas pela corrupção da época as aspirações nobres do espírito humano, surgem como ídolos que a multidão adora, o bezerro de oiro, o bastão de comando, a figura sádica da volúpia.
         O egoísmo avassala as almas. A felicidade concretiza-se para a maioria num montão de libras, num lugar de chefe não importa saber de quê, no deboche dum prazer que se compra.
         A justiça deixou de ser uma virgem de olhos vendados, para ser a megera hedionda, sem escrúpulos, sem noção das proporções, que, vencida pelo temor ou pela coacção, deixa o crime impune, ou decide a favor do mais poderoso.
         Anda a hipocrisia à solta. A Humanidade perdeu a consciência da sua própria consciência.
         E uma rajada de loucura e ódio revolve tempestuosamente o mar de lama em que a sociedade se submerge.
         No entanto, se, racionalmente, não devemos admitir o dogma da bondade natural do ser humano, não devemos também, logicamente, considerar o ser humano como fundamentalmente mau.
         Entre o fervilhar das paixões e dos interesses, que asfixiam as aspirações de justiça e fraternidade nos nossos dias, há fachos de luz que bruxuleiam através da atmosfera densa, há movimentos de opinião sinceros e puros, frementes de energia, que anseiam por dar combate à degradação dos costumes.
         Não é Portugal o único país em que o mal, em todos os seus aspectos, vem destruindo a harmonia social.
         A degradação é geral. Por toda a parte se verificam os mesmos pródromos alarmantes: a política de corrupção, a imprensa vendida, a bacanal infrene, a miséria esquecida, o negócio ganancioso.
         Mas é Portugal o país onde mais desconsoladoramente se verifica a inércia da massa perante os factos. A nação portuguesa, velha matrona indiferente, dormita impassível, cruzados os braços sobre o abdómen, à espera, talvez, dum D. Sebastião salvador.
         Não se ouve um grito, porque se algum grito soa, a força espúria dos interesses maquiavélicos afoga-o no silêncio da grande imprensa, nos insultos gratuitos dos porta-vozes de baixa política, na insinuação pérfida, nas acusações sem base dos ambiciosos do negócio escuro.
         E assim se vai vivendo…

         Entre as causas do grande desvario, afigura-se-nos terem lugar primacial certas vulgarizações baratas das doutrinas materialistas.
         Não confundamos, porém, materialismo com racionalismo.
         O último impõe-se nesta época em que, a par da tragédia social, e talvez devido à expansão daquele materialismo, o cérebro humano tem concebido algumas das mais formidáveis maravilhas de toda a história.
         A própria definição de racionalismo, - sistema fundado sobre a razão, oposto aos sistemas que se baseiam na revelação, - deveria bastar para que toda a humanidade consciente o perfilhasse.
         Descartes, proclamando igual em todo o ser humano, a faculdade de discernir o verdadeiro do falso, foi um racionalista.
         Aliás o materialismo, esse sistema que reduziu todo o universo à unidade da matéria, tornando-a consequentemente o fulcro único da nossa actividade, parece-nos ser, à própria luz do racionalismo, uma negação da inteira realidade.
         Como a grande massa não analisa a argumentação nem aprofunda as teorias, o materialismo entrou no espírito das multidões sob uma forma simplista, destruindo todos esses princípios que estão para além da matéria: moral, justiça, mutualidade, amor, bondade, - transformando a vida num culto à divindade-corpo, numa luta desesperada pelo bem-estar do organismo, na extorsão, por todos os meios, ao mundo exterior, dos factores duma vida de conforto e satisfação material.
         A vida reduziu-se afinal a um conjunto de funções orgânicas, e, - heresia suprema, - ousou-se classificar entre elas, a função pensante.
         O pensamento transformou-se numa secreção cerebral.
         Ora, invocando ainda o racionalismo de Descartes, nós podemos admitir que todos os nossos conhecimentos são dominados por certos princípios supremos fornecidos pela razão.
         A razão afirma-nos a sua própria existência fora da matéria.
         O pensamento é, consequentemente, não uma secreção cerebral, mas a manifestação da razão através do cérebro.
         E a razão é um atributo do espírito.
         Assim atingimos a ponte de ligação entre o racionalismo e o espiritualismo.
         Deve notar-se que não pretendemos negar a legitimidade do materialismo filosófico; mas o materialismo observa apenas um aspecto da realidade.
         O neo-espiritualismo, objectivado ao máximo nas teorias teosóficas, não desmente a legitimidade das teorias que o combatem. Considera-as como prismas de visão limitada, que não abrangem a realidade em toda a sua amplitude. Pela mesma razão, não refuta as religiões. As religiões enfermam do mesmo mal.
E contudo, nós encontramos entre elas, no Budismo, o espírito racionalista.
Gautama Buda ensinou que o dever dum pai consiste em fazer instruir seu filho nas ciências e nas letras. Ensinou também que não devemos crer nas afirmações dos sábios, dos livros ou das tradições, desde que não estejam der acordo com a nossa razão.
Há nestes ensinamentos uma evidente revolta contra a fé arbitrária, contra o dogma.
O espiritualismo racional é uma das grandes armas de combate à situação social da época presente.
Oxalá não seja esquecida a falência das seitas religiosas como obstáculo à imoralidade, à injustiça, à perversão, pelos orientadores do neo-espiritualismo!
Perder-se hão assim os resultados conseguidos já em todo o mundo, por essa força poderosa que tendia à espiritualização da Humanidade pela Razão, e que se submergirá agora nas grosseiras fórmulas dum fideísmo novo.
Para salvar o espiritualismo é necessário libertá-lo desse falso misticismo e do dogmatismo que o diminuem, propagá-lo como teoria filosófica moral e lógica, e finalmente aproximá-lo da multidão no seu aspecto mais acessível e mais afirmativo.
O problema espiritualista tem preocupado, sob esse aspecto, - o meta psiquismo, - grandes inteligências contemporâneas: William Crookes, Lombroso, Flammarion, Charles Richet, Schrench Nötzing, René Sudre, Geley, William James, Bergson, Maeterlinck e tantos outros.
Não há problema mais emocionante que o problema da nossa vida espiritual, ao qual estão intimamente ligados o problema da Felicidade Humana, o problema das nossas faculdades psíquicas, o problema da morte.
Ninguém desconhece os numerosos factos estranhos que, com incremento sensível no século actual, se estão dando no mundo, sem que a ciência oficial consiga explicá-los.
Poderíamos citar alguns. A longa documentação do relatório da «Society for Psychical Researches», ou da obra «La morte et son mystère» de Camille Flammarion, para não mencionar outros trabalhos, justifica a nossa abstenção.
O problema metapsíquico, conta hoje, de resto, quer no seu aspecto teórico e filosófico, uma bibliografia que atinge alguns milhões de volumes.
Portugal, porém, aparte uma pequena minoria de curiosos, entre os quais rareiam os espíritos analíticos e do critério científico, tem-se mantido indiferente à nova ciência.
Há uma incontestável falta de coragem para afirmar, há uma evidente desorientação nas investigações, e um desinteresse absoluto pela questão, por parte de quem, com bases cientificas e categoria intelectual, tinha o dever de se aventurar nestas paragens misteriosas, onde a fraude, muitas vezes inconsciente, tem surgido ao lado de factos reais, lançando sobre os últimos uma atmosfera de suspeição e dúvida.

A Cidade do Sol provocará por isso entre o reduzido número de pessoas alheias ao assunto que se derem à distracção de nos ler, um gesto de indiferença, um sorriso céptico, talvez um sorriso de piedade.
Expondo sob esta forma as possibilidades psíquicas do ser humano, deixando entrever a acção vigorizante e moralizadora das teorias neo-espiritualistas na sociedade, nós aspirava-mos despertar nos meios intelectuais e ilustrados a curiosidade pelo assunto, cônscios de que é necessário promover entre nós, analogamente ao que se está fazendo no estrangeiro, o estudo e a investigação das leis que regem os fenómenos desta natureza, a análise crítica desses milhares de factos que continuamente nos chegam aos ouvidos e que é indispensável coligir, escolher, e rejeitar sempre que não ofereçam garantias absolutas de autenticidade, - mas reconhecendo publicamente tudo quanto for, na realidade, incontroverso.
Talvez nos acusem de confusos em certos pontos. Atribuir-nos hão talvez intenções metafísicas que não tivemos.
O nosso trabalho foi concebido especialmente para aqueles que já sobre o assunto têm alguns conhecimentos. A névoa que poderá embaciar a clareza de certas passagens é consequência, em parte, dessa circunstância.

***

         Duas palavras ainda, sobre o título.
         Pouco tempo antes do romance dar entrada no prelo, informaram-nos da existência duma obra de Campanela, «La ciudade del Sol».

         Não havendo qualquer ponto de contacto entre o nosso trabalho e o livro espanhol que desconhecíamos, resolvemos manter o título, com a consciência livre de qualquer intenção plagiária.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dicionário de lugares imaginários



.../...
Entre os diversos tipos de viagens imaginárias, a do viajante de poltrona constitui uma classe em si. Alguns, como Plínio, o Velho, no século I, escreveram textos interessantes sobre lugares distantes que nunca viram, com uma convicção que, séculos mais tarde, levou leitores como Otelo a acreditarem que havia «homens cujas cabeças/ crescem por baixo dos ombros», como aparece representado na Crónica de Nuremberga, de 1493. O contumaz mentiroso John de Mandeville, por exemplo, descreveu como visitou grande parte do Oriente, como bebeu da Fonte da juventude, na costa do Malabar, e como serviu no exército do imperador da China. «Do Paraíso», refere, no entanto, «não posso falar, dado não ter estado lá».
.../...

Dicionário de lugares imaginários
Autores: Alberto Manguel e Gianni Guadalupi
Ilustrações: Graham Greenfield e Eric Beddows
Mapas: James Cook
Tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos
Capa: Vera Tavares
1ª edição: Agosto de 2013
TINTA DA CHINA - Lisboa



segunda-feira, 20 de maio de 2013

Contra o (dito) Acordo Ortográfico



          Pedro Correia é jornalista e activíssimo bloguista nacional; escreve no DELITO DE OPINIÃO e tem feito um trabalho consistente e persistente para denunciar o despropósito disso a que se resolveu chamar  acordo ortográfico.
          Já está disponível nas livrarias e tem sessão de lançamento  marcada para Terça-Feira, dia 21, a partir das 18h30' na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). Fará a apresentação o Pedro Mexia. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Samarcanda


        
         - É sempre preferível que uma desgraça chegue tarde! Não conheces a história do burro falante de Nollah Nasruddine?
         Este último é o herói semi-lendário de todas as anedotas e de todas as parábolas da Pérsia, da Transoxiânia e da Ásia Menor. Chirine contou:
         - Dizem que um rei meio louco condenara Nasruddine à morte por ter roubado um burro. No momento em que vão conduzi-lo ao suplício, Nasruddine exclama: «Este animal é em realidade meu irmão, um mágico deu-lhe a aparência que vedes, mas se mo confiarem durante um ano ensiná-lo-ei de novo a falar como vós e eu!». Intrigado, o monarca manda o acusado repetir a promessa antes de decretar: «Muito bem! Mas se dentro de um ano, nem mais um dia, o burro não falar, serás executado.» À saída, Nasruddine é interpelado pela esposa: «como podes prometer semelhante coisa? Sabes muito bem que o burro nunca há-de falar.» - «É claro que sei», responde Nasruddine, «mas daqui a um ano o rei pode morrer, o burro pode morrer, ou então posso eu morrer.» a princesa prosseguiu:
         - Se tivéssemos sabido ganhar tempo, a Rússia talvez se atolasse nas guerras dos Balcãs ou na China. E depois o czar não é eterno, …
 
Título do original: Samarcande
Tradução de G. Cascais Franco
Autor. Amin Maalouf
(Distribuição de forma conjunta e inseparável com uma publicação do Grupo COFINA)
BIBLIOTECA SÁBADO
 

terça-feira, 5 de março de 2013

Omar Khayyam


Omar Khayyam (1048-1131), persa de Nichapur,
 poeta, matemático e astrónomo.
 
 

Trago um dos seus Rubaiyat ou robai (no singular) - quadra:
 
 
***
Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
 
***
 
Encontre os seus rubaiyat aqui
 


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Fenómeno Humano


O FENÓMENO HUMANO
Pierre Teilhard de Chardin
(escrito entre 1938 e 1940, sofreu "retoques" em 1947 e 1948)

Editora Herder – São Paulo
Filosofia e Religião (16º Volume) – Biblioteca fundada por Leonardo Coimbra
Livraria Tavares Martins, Porto – 1970 (3ª Edição)
Título Original: LE PHÉNOMENE HUMAIN  (Éditions du Seuil, Paris)
Tradução portuguesa de LÉON BOURDON (Professor) e JOSÉ TERRA (Leitor), do Instituto de
                                                                                Estudos Portugueses da Sorbonne

Os direitos em língua Portuguesa pertencem à Livraria Tavares Martins, Porto – Portugal



Extracto do RESUMO OU POSFÁCIO


1. UM MUNDO QUE SE ENROLA: OU A LEI CÓSMICA DE
COMPLEXIDADE-CONSCIÊNCIA

            Temo-nos familiarizado ultimamente, na escola dos astrónomos, com a ideia de um Universo que, desde há alguns biliões de anos (apenas!), teria vindo desabrochando em galáxias a partir de uma espécie de átomo primordial. Esta perspectiva de um mundo em estado de explosão é ainda discutida: mas a nenhum físico ocorreria a ideia de a rejeitar como eivada de filosofia ou de finalismo. Não é mau ter sob os olhos este exemplo para compreender ao mesmo tempo o alcance, os limites e a perfeita legitimidade científica das concepções que aqui proponho. Reduzido, com efeito, ao seu cerne mais puro, a substância das longas páginas que precedem reduzem inteiramente a esta simples afirmação, que, se o Universo nos aparece sideralmente como em vias de expansão espacial (do ínfimo ao imenso), do mesmo modo, e ainda mais claramente, ele se nos apresenta, físico-químicamente, como em vias de enrolamento orgânico sobre si próprio (do muito simples ao extremamente complicado) – achando-se este enrolamento particular «de complexidade» experimentalmente ligado a um aumento correlativo de interiorização, quer dizer de psique ou consciência.
            No domínio exíguo do nosso planeta (o único até agora em que podemos praticar a Biologia), a relação estrutural aqui notada entre complexidade e consciência é experimentalmente incontestável, e desde sempre conhecida. O que confere originalidade à posição adoptada neste livro é o facto de nele se afirmar, desde início, que esta propriedade particular que possuem as substâncias terrestres de cada vez mais se vitalizarem complicando-se cada vez mais não é senão a manifestação e a expressão local de uma deriva tão universal (e excepcionalmente significativa) como aquelas, já identificadas pela Ciência, que levam as camadas cósmicas não só a alastrarem explosivamente como uma onda, mas também a condensarem-se corpuscularmente sob as formas do electromagnetismo e da gravidade, ou ainda a desmaterializarem-se por irradiação: achando-se provavelmente estas diversas derivas (um dia o reconheceremos) estritamente conjugadas entre si.
            Se assim é, vê-se que a consciência, definida experimentalmente como efeito específico da complexidade organizada, ultrapassa muito o intervalo , ridiculamente pequeno, em que os nossos olhos conseguem distingui-la directamente.
            Por um lado, com efeito, mesmo onde valores quer muito pequenos, quer até médios,  de complexidade no-la tornam estritamente imperceptível (quer dizer, a partir e abaixo das muito grandes moléculas), somos logicamente levados a conjecturar em qualquer corpúsculo a existência rudimentar (no estado de infinitamente pequeno, isto é, infinitamente difuso) de alguma psique – exactamente como o físico admite e poderia calcular as alterações de massa (completamente inapreensíveis para uma experiência directa) que se produzem no caso de movimentos lentos.
            Por outro lado, precisamente nos pontos do Mundo onde, em consequência de circunstâncias físicas diversas (temperatura, gravidade…), a complexidade não chega a atingir os valores ao nível dos quais uma irradiação de consciência poderia influenciar os nossos olhos, somos induzidos a pensar que, tornando-se favoráveis as condições, o enrolamento, momentaneamente detido, retomaria logo a sua marcha para a frente.
            Observando, insisto, segundo o seu eixo das Complexidades, o Universo encontra-se, no conjunto e em cada um dos seus pontos, em estado de tensão contínua de dobramento orgânico sobre si mesmo e, portanto, de interiorização. O que significa que, para a Ciência, a Vida se acha desde sempre e por toda a parte em estado de pressão; e que, nos sítios em que conseguiu romper de modo apreciável, nada a pode impedir de levar até ao máximo o processo de que saiu.
           

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As Cidades Invisíveis

 
 

I
 
            Nada garante que Kublai kan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões, mas a verdade é que o imperador dos tártaros continua a ouvir o jovem veneziano com maior atenção e curiosidade que a qualquer outro enviado seu ou explorador. Na vida dos imperadores há um momento, que se ergue ao orgulho pela vastidão ilimitada dos territórios que conquistámos, á melancolia e ao alívio de sabermos que em breve renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los; um sentimento como que de vazio que nos assola uma noite como o cheiro dos elefantes depois de chover e da cinza de sândalo que arrefece nas braseiras; uma vertigem que faz tremer os rios e as montanhas historiados em fila na exuberante garupa dos planisférios, que enrola uns nos outros os despachos que nos anunciam a derrocada dos últimos exércitos inimigos de derrota em derrota, e tira o lacre dos selos de reis de que nunca se ouviu falar e que imploram a protecção das nossas armadas que avançam em troca de tributos anuais em metais preciosos, peles curtidas e cascas de tartaruga: é o momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiado gangrenada para que baste o nosso ceptro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros da sua longa ruína. Só nos relatos de Marco Polo, Kublai Kan conseguia discernir, através das muralhas e das torres destinadas a ruir, a filigrana de um desenho tão fino que escapasse ao roer das térmitas.

Título do original: Le città invisibile
Autor: Italo Calvino
Tradução de José Colaço Barreiros
(Distribuição de forma conjunta e inseparável com uma publicação do Grupo COFINA)
BIBLIOTECA SÁBADO

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Número de Ouro





A intensidade da conhecida força electromagnética entre dois electrões, por exemplo, expressa-se em física em função de uma constante denominada «constante de estrutura fina». O valor desta constante, quase exactamente 1/137, intrigou muito as gerações de físicos. Uma anedota sobre o famoso físico inglês Paul Dirac (1902-1984), um dos fundadores da mecânica quântica, diz que, quando chegou ao Céu, lhe foi permitido fazer uma pergunta a Deus. A sua questão foi: «Porquê 1/137?»
               A sucessão de Fibonacci contém ainda um número absolutamente espantoso – o seu décimo primeiro número, 89. O valor de 1/89 em representação decimal é igual a 0,011 235 95 … Suponhamos que reordenávamos os números de Fibonacci 1, 1, 2, 3 , 5, 8, 13, 21, … como fracções decimais da seguinte forma:


O NÚMERO DE OURO
Título original: The Golden Ratio - The Story of Phi, the World´s Most Astonishing Number
Mario Livio, 2002
Gradiva
Tradução: João Nuno Torres

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O LIVRO DAS IGREJAS ABANDONADAS




---*---


               A MANCHA PRETA

       Os mineiros de carvão tinham feito uma cabana que lhes servia de igreja. Pilhas de lenha formavam as paredes e cobria tudo um telheiro de ramadas.
       O padre vinha dizer missa no dia da assunção e quase sempre estavam agachados lá dentro porque fora já chovia e a água fazia tremer as folhas do bosque.
       No mês de Outubro de mil novecentos e cinquenta, uma noite um raio atingiu em cheio a igreja queimando tudo.
       Agora a gente do vale vem cá acima rezar ao pé da mancha preta de cinzas e, quando levanta os olhos, vê ali à frente por um momento a cabana em pé, e o raio ainda não caiu.
 
---*---
 
O Livro das Igrejas Abandonadas
(Il libro delle chiese abbandonate) - 1988
Tonino Guerra (16/3/1920 - 21/3/2012)
Edição: ASSÍRIO & ALVIM
             (Gato Maltês/31)



domingo, 18 de novembro de 2012

O Candelabro Sagrado


 
          …
         Rabi Eliezer, o «Puro e Sereno», foi o primeiro a tranquilizar-se, fazendo afectuosamente uma festa no rosto da criança.
          - Tu és um valente – disse, debruçando-se para o pequeno. - Tinha a tua mão na minha e não a senti estremecer. Queres que continuemos a conversar? Ainda não sabes onde vamos nem porque estamos a pé esta noite.
          - Conta… - murmurou o rapazito, com ligeiro tom de prece na voz.
          - Como te disse e te deves recordar, Tito, o maldito, tinha levado os nossos objectos sagrados para Roma e teve a vaidade de os mostrar, em espectáculo, a toda a cidade. Mais tarde, os imperadores romanos que lhe sucederam, depositaram a nossa menorah com as outras relíquias de Schelomo num edfício a que chamaram Templo da Paz. Frase insensata! Como se a paz pudesse durar e ter asilo neste mundo belicoso! Mas o Eterno não permite que aquilo de ornamento em sua própria casa, fique num templo estrangeiro; uma noite, Ele ateou um incêndio que consumiu o monumento, as estátuas e as riquezas que continha. Apenas o nosso candelabro escapou às chamas devoradoras. Foi uma nova prova de que nem o fogo, nem a mão criminosa dos homens podem nada sobre Ele. Deus adverte-os assim de que devem pôr os objectos sagrados no lugar santo onde os veneramos, unicamente pela sua santidade e não por causa do seu valor. Mas os loucos compreendem as advertências do céu, os corações endurecidos obedecem à razão? …
          Rabi Eliezer suspirou e prosseguiu:
          - … Eles agarraram no nosso candelabro sagrado e levaram-no, uma segunda vez, para outra casa do imperador: e como ele dormia lá, no fundo de um quarto bem fechado, pensaram em tê-lo ali guardado eternamente. Mas um bandido encontra sempre outro bandido que o ataca, e aquilo que se conquista pela violência perde-se pela violência. Cartago atacou Roma, como Roma assaltara Jeruscholajim. Pilharam-na como ela nos espoliara a nós; os seus santuários foram ultrajados como haviam sido os nossos. Mas os bandidos que tu viste lá em baixo, roubaram-nos também o nosso bem, o nosso divino candelabro, e os seus carros, que vão diante de nós, conduzem o que os nossos corações mais amam. Amanhã, embarcam-no e levam-no para outros céus, longe dos nossos olhos desolados; a sua luz nunca mais nos iluminará, a nós, que já somos velhos! Nós seguimos a menorah que nos deixa, como se acompanha na sua última viagem os despojos de um ente querido, para lhe testemunharmos a nossa afeição. Perdemos o que possuímos de mais sagrado: compreendes agora a tristeza da nossa missão?
          …

          
Excerto de:
            O CANDELABRO SAGRADO
            (O candelabro enterrado – 1937)
            Autor: Stefan Zweig (1881 – 1942)
            Tradução de Alice Ogando
            Livraria Civilização – Editora
            3ª edição, 1947
 
Triunfo de Tito, detalhe do Arco de Tito. Roma
 
Imagem daqui





sábado, 3 de novembro de 2012

O Aleph


… Não se dirá melhor o que ali se disse. Além do mais (e talvez isto seja o essencial das minhas reflexões), o tempo, que despoja as fortalezas, enriquece os versos. O de Zuhair, quando este o compôs na Arábia, serviu para confrontar duas imagens, a do velho camelo e a do destino; repetido agora, serve para recordar Zuhair e para confundir os nossos pesares com os daquele árabe morto. Dois termos tinha a imagem e hoje tem quatro. O tempo amplia o âmbito dos versos e sei de alguns que, como a música, são tudo para todos os homens. Assim, atormentado há anos em Marrakesh com saudades de Córdova, comprazia-me em repetir a apóstrofe que Abdurrahman dirigiu, nos jardins de Ruzafa, a uma palmeira:

 
                   Tu também és, ó palmeira!,
                   Estrangeira neste solo…

 
        Singular benefício da poesia: palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África, para a minha nostalgia de Espanha.
          …
Excerto de “A BUSCA DE AVERRÓIS”
 
 
 
Editorial Estampa - Ficções, n.º7
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

não sou eu





          Desde Dezembro, antes do Natal que não faço nada. Piorei da minha doença, tive de ficar de cama durante um mês, numa inactividade completa. Levantei-me enfim, mas por alguns dias apenas, porque o frio me obrigou de novo a ficar na cama.
          Entretanto, pelo Adalberto, mandei comprar folhas soltas para escrever e para desenho. As folhas chegaram há dias. Eu estava a pé nessa altura… E logo me assaltou uma fúria imensa pelo desenho. Comecei, fiz alguma coisa mas tive de parar.
          Como eu desejaria nesta altura uma saúde de ferro só para poder desenhar à minha vontade, horas e horas sem descanso, até à exaustão! Em vez disso, porém, estou na cama e todo o meu labor se limita a desenhar no vácuo pelo pensamento que não pára, numa sucessão de imagens por vezes tão claras, tão nítidas, que é impossível que alguma coisa não fique em mim para dar fruto num futuro melhor.
          Oh! O que eu sonho de desenhos e de pinturas! E de que forma me ultrapasso e supero neste desenhar e pintar mental! É uma doidice deixar-me arrastar assim, consentir que de tal forma me empolgue a imagem aliada á ideia do que farei … Pois se eu sei que não sei nada! Se mais do que isso eu sei que não posso nada! Como suster, porém, a torrente que brota, que esguicha do meu cérebro livre de distracções por esta quietude de corpo em que estou?
          Em certos momentos, convicto da impossível altura a que pelo pensamento me guindei, fecho as comportas, ponho um tampão neste sonhar louco… Mas de que vale? Daí a nada tudo salta em estilhar; uma nova ideia entra a germinar, a roer… E não sou mais eu quem pensa: é alguém no ar, seguindo a ideia, que se dilata, cresce, atinge proporções descomunais, qual bola de neve rolando do cimo do monte. Entretanto, eu sei, bola de neve ou ideia terão fim idêntico: ou pelo caminho as despedaça um obstáculo imprevisto, ou acabarão seus dias no fundo do precipício onde as forças da natureza ou a realidade da vida as levou…
          Sei isto e no entanto continuo a pensar coisas fantásticas, todo nas nuvens, feliz, de uma felicidade de criança grande, para quem o desmoronar de todo um sonho não é mal maior nem desgraça tão forte que lhe roube a faculdade de pensar, de fantasiar de novo, e sempre mais alto.


                                                        Freamunde, 12 de Fevereiro de 1960
 
João Fernando Correia de Moura (26/0871931 – 18/06/1964)
Autor Freamundense
Prefácio de: José Carlos de Vasconcelos
Edição - Câmara Municipal de Paços de Ferreira
Freamunde, Novembro de 2009

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Serviço internet


O que se encontra dentro dos livros!

            Fez-me muito bem reencontrar este pequeno documento.
            É uma “Venda a Dinheiro” relativa ao serviço pela internet da BERTRAND, LIVREIROS. Está expressa em escudos, moeda à beira do desaparecimento naquela data – 27 de Abril de 2001. Reporta-se a tempos em que a data de 11 de Setembro ainda não representava nada de especial. É um documento pequeno, de fácil leitura, e apesar de se referir a uma venda feita pela internet é manuscrito.
            Lembra tempos bons em que não se questionava o lugar das pessoas.
            Exprime o necessário e o suficiente.
            Não clama por um arquivamento nem pela guarda ao arquivo e não quer ser mais importante do que o livro a que se refere.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sobre as Falésias de Mármore



           
         Nestas lutas, que descambavam em caça ao homem, emboscadas e crimes de fogo posto, os partidos perderam todo o sentido da medida. Cedo se ficou com a impressão de que eles já mal se consideravam entre si como homens, semeando-se a sua linguagem de palavras ordinariamente só aplicadas aos parasitas, que importa a todo o custo destruir e exterminar pelo fogo. Só sabiam reconhecer o crime no campo oposto, pelo que era entre eles honroso o que no adversário era abjecto. Enquanto cada um considerava os mortos dos outros quanto muito dignos de ser enterrados de noite e às escuras, deviam os do seu campo ser envoltos no lençol de púrpura, devia ressoar o eburnum em sua intenção e subir nos ares a águia, levando até aos deuses a imagem viva de heróis e profetas.
         Em boa verdade, nenhum dos grandes cantores, por mais que os aliciassem a peso de ouro, se dispôs a participar em semelhante profanação. Dirigiram-se então aqueles aos harpistas, que tocam nos bailes das romarias, e aos citaristas cegos que, diante dos triclinia dos lupanares, alegram os embriagados clientes com canções sobre a concha de Vénus e sobre o Hércules glutão. Campeões e bardos eram, pois, dignos uns dos outros.
         É bem sabido, no entanto, como o metro é incorruptível. Os fogos da destruição não alcançam as suas colunas e os seus portais invisíveis. Não há vontade que se imponha à harmonia, e não passam assim de vigaristas que se defraudam a si próprios os que presumiam poder comprar oferendas sacrificiais com a dignidade do eburnum. Assistimos apenas à primeira destas exéquias, e tudo se passou exactamente como tínhamos previsto. O mercenário, de quem se exigia estivesse à altura sublime e ígnea matéria do poema, não tardou a gaguejar e a atrapalhar-se. Mas logo recuperou a fluência servindo-se dos iambos abjectos do ódio e da vingança, que sibilavam no pó. Presenciando este espectáculo, víamos a multidão ostentando as túnicas cor de púrpura que se envergam para o eburnum, e também os magistrados e o clero com as vestes talares. Outrora, quando a águia se elevava nos ares, fazia-se silêncio; agora, deu-se uma explosão de júbilo selvagem.
        

Título original: Auf Den Marmorklippen
Autor: Ernst Jünger (1895 - 1998) - Escritor Alemão
Colecção: Escola de Letras - VEGA
Tradução, prefácio e notas: Rafael Gomes Filipe
2ª edição (1998)
Editor: Assírio Bacelar
Capa: Machado Dias



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Poeta Lírico


            Um Poeta Lírico


Este período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a sua palavra colorida, poética recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como ele dizia, os terrenos mais áridos; de uma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o Ministério, porém, e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se, sem lógica constitucional, num destes súbitos desabamentos políticos tão comuns na Grécia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas – sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades… Tudo tende para o pó num solo de ruínas…
        Nova lacuna, mergulho obscuro na história de Korriscosso…

       

          Obras de Eça de Queiroz
          CONTOS
          Editora Livros do Brasil
          Lisboa – Fevereiro de 2011


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Moral


NOÇÕES DE MORAL
Livro do ensino primário de Florentino Borges (Prof. Primário)
Livraria Fernandes – 1912
Preço de capa: 120 Réis

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A Consciência e a educação
A consciência sem a educação é como a terra sem agricultura. É necessário educar a consciência afim de a esclarecer e guiar. – É essa a missão da moral.
A moral cultiva a consciência, como o lavrador cultiva e fecunda a terra. É ela que nos ensina a distinguir claramente os nossos deveres.
            Neste sentido a moral carece dos bons exemplos de nossos pais, de nossos irmãos, de todos os nossos semelhantes.
            ...
            Chegado aqui, e agora sou eu (jmp) a falar, fui confrontado com a dúvida se os parlamentares e membros do governo poderão ser considerados nossos semelhantes. São, não são - são, não são, não são nada! E não sendo está tudo bem...





segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pele Trigueira


O recorte de jornal que trago hoje é dos inícios do Séc. XX. Reproduzo-o pela informação implícita sobre a evolução das preocupações da humanidade.
Sobre a informação objectiva que o papelinho contém, mantenho respeitosas reservas. Em todo o caso, desaconselho vivamente a experiência.
Para os dias de calor que todos esperamos, não esquecer a roupinha adequada, os óculos de sol, chapéu de abas largas, e beber muita água.


O que se encontra dentro dos livros!