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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Dito 47



          As despedidas e o suicídio perdem a sua dignidade se os repetirem
 
Jorge Luis Borges, em "História da eternidade"

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Mercedes Blasco


 


              Mercedes Blasco (4.Set/1870 - 12.Abr/1961)
              Apontamento da Revista “ABC”, n.º 109 de 17 de Agosto de 1922
Mais sobre Mercedes Blasco aqui.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Cruzeiro de Freamunde

 


 
            Enquanto fotografo o cruzeiro, atravessa a estrada de frente para mim, o poeta António Rodela.
            - Venha cá, também ficou na fotografia.
            - A tirar fotografias ao cruzeiro, é simples, há mais bonitos…
            - É bonito, robusto, e alto
            - Já escrevi umas coisas ao cruzeiro, um soneto, até tenho aqui
            O Rodela abriu a maleta de mão e expôs um grosso monte de papéis escritos com letra muito certinha, e um caderno; localizou a folha com os versos ao cruzeiro como se nunca tivesse tido outra em mente.


            Cruzeiro dos meus tempos de menino,
            Quantas noites inteiras de verão
            Eu faço a minha cama no teu chão,
            Até que para a missa toque o sino.

            E as vezes que eu girei em procissão
            Aqui ao teu redor, de opa ou de anjinho,
            No papel de autêntico santinho,
            Embora fosse só de ocasião.

            Os teus braços velhinhos e cansados
            São a mais linda renda de bordados
            Que a nossa terra põe na mesa.

            Quando tem que assear os seus portais
            Pra receber visitas cordiais,
            Em ti até o sol tem mais justeza.

                  Rodela, 11-10-2002

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O LIVRO DAS IGREJAS ABANDONADAS




---*---


               A MANCHA PRETA

       Os mineiros de carvão tinham feito uma cabana que lhes servia de igreja. Pilhas de lenha formavam as paredes e cobria tudo um telheiro de ramadas.
       O padre vinha dizer missa no dia da assunção e quase sempre estavam agachados lá dentro porque fora já chovia e a água fazia tremer as folhas do bosque.
       No mês de Outubro de mil novecentos e cinquenta, uma noite um raio atingiu em cheio a igreja queimando tudo.
       Agora a gente do vale vem cá acima rezar ao pé da mancha preta de cinzas e, quando levanta os olhos, vê ali à frente por um momento a cabana em pé, e o raio ainda não caiu.
 
---*---
 
O Livro das Igrejas Abandonadas
(Il libro delle chiese abbandonate) - 1988
Tonino Guerra (16/3/1920 - 21/3/2012)
Edição: ASSÍRIO & ALVIM
             (Gato Maltês/31)



domingo, 18 de novembro de 2012

O Candelabro Sagrado


 
          …
         Rabi Eliezer, o «Puro e Sereno», foi o primeiro a tranquilizar-se, fazendo afectuosamente uma festa no rosto da criança.
          - Tu és um valente – disse, debruçando-se para o pequeno. - Tinha a tua mão na minha e não a senti estremecer. Queres que continuemos a conversar? Ainda não sabes onde vamos nem porque estamos a pé esta noite.
          - Conta… - murmurou o rapazito, com ligeiro tom de prece na voz.
          - Como te disse e te deves recordar, Tito, o maldito, tinha levado os nossos objectos sagrados para Roma e teve a vaidade de os mostrar, em espectáculo, a toda a cidade. Mais tarde, os imperadores romanos que lhe sucederam, depositaram a nossa menorah com as outras relíquias de Schelomo num edfício a que chamaram Templo da Paz. Frase insensata! Como se a paz pudesse durar e ter asilo neste mundo belicoso! Mas o Eterno não permite que aquilo de ornamento em sua própria casa, fique num templo estrangeiro; uma noite, Ele ateou um incêndio que consumiu o monumento, as estátuas e as riquezas que continha. Apenas o nosso candelabro escapou às chamas devoradoras. Foi uma nova prova de que nem o fogo, nem a mão criminosa dos homens podem nada sobre Ele. Deus adverte-os assim de que devem pôr os objectos sagrados no lugar santo onde os veneramos, unicamente pela sua santidade e não por causa do seu valor. Mas os loucos compreendem as advertências do céu, os corações endurecidos obedecem à razão? …
          Rabi Eliezer suspirou e prosseguiu:
          - … Eles agarraram no nosso candelabro sagrado e levaram-no, uma segunda vez, para outra casa do imperador: e como ele dormia lá, no fundo de um quarto bem fechado, pensaram em tê-lo ali guardado eternamente. Mas um bandido encontra sempre outro bandido que o ataca, e aquilo que se conquista pela violência perde-se pela violência. Cartago atacou Roma, como Roma assaltara Jeruscholajim. Pilharam-na como ela nos espoliara a nós; os seus santuários foram ultrajados como haviam sido os nossos. Mas os bandidos que tu viste lá em baixo, roubaram-nos também o nosso bem, o nosso divino candelabro, e os seus carros, que vão diante de nós, conduzem o que os nossos corações mais amam. Amanhã, embarcam-no e levam-no para outros céus, longe dos nossos olhos desolados; a sua luz nunca mais nos iluminará, a nós, que já somos velhos! Nós seguimos a menorah que nos deixa, como se acompanha na sua última viagem os despojos de um ente querido, para lhe testemunharmos a nossa afeição. Perdemos o que possuímos de mais sagrado: compreendes agora a tristeza da nossa missão?
          …

          
Excerto de:
            O CANDELABRO SAGRADO
            (O candelabro enterrado – 1937)
            Autor: Stefan Zweig (1881 – 1942)
            Tradução de Alice Ogando
            Livraria Civilização – Editora
            3ª edição, 1947
 
Triunfo de Tito, detalhe do Arco de Tito. Roma
 
Imagem daqui





sábado, 3 de novembro de 2012

O Aleph


… Não se dirá melhor o que ali se disse. Além do mais (e talvez isto seja o essencial das minhas reflexões), o tempo, que despoja as fortalezas, enriquece os versos. O de Zuhair, quando este o compôs na Arábia, serviu para confrontar duas imagens, a do velho camelo e a do destino; repetido agora, serve para recordar Zuhair e para confundir os nossos pesares com os daquele árabe morto. Dois termos tinha a imagem e hoje tem quatro. O tempo amplia o âmbito dos versos e sei de alguns que, como a música, são tudo para todos os homens. Assim, atormentado há anos em Marrakesh com saudades de Córdova, comprazia-me em repetir a apóstrofe que Abdurrahman dirigiu, nos jardins de Ruzafa, a uma palmeira:

 
                   Tu também és, ó palmeira!,
                   Estrangeira neste solo…

 
        Singular benefício da poesia: palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África, para a minha nostalgia de Espanha.
          …
Excerto de “A BUSCA DE AVERRÓIS”
 
 
 
Editorial Estampa - Ficções, n.º7
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

não sou eu





          Desde Dezembro, antes do Natal que não faço nada. Piorei da minha doença, tive de ficar de cama durante um mês, numa inactividade completa. Levantei-me enfim, mas por alguns dias apenas, porque o frio me obrigou de novo a ficar na cama.
          Entretanto, pelo Adalberto, mandei comprar folhas soltas para escrever e para desenho. As folhas chegaram há dias. Eu estava a pé nessa altura… E logo me assaltou uma fúria imensa pelo desenho. Comecei, fiz alguma coisa mas tive de parar.
          Como eu desejaria nesta altura uma saúde de ferro só para poder desenhar à minha vontade, horas e horas sem descanso, até à exaustão! Em vez disso, porém, estou na cama e todo o meu labor se limita a desenhar no vácuo pelo pensamento que não pára, numa sucessão de imagens por vezes tão claras, tão nítidas, que é impossível que alguma coisa não fique em mim para dar fruto num futuro melhor.
          Oh! O que eu sonho de desenhos e de pinturas! E de que forma me ultrapasso e supero neste desenhar e pintar mental! É uma doidice deixar-me arrastar assim, consentir que de tal forma me empolgue a imagem aliada á ideia do que farei … Pois se eu sei que não sei nada! Se mais do que isso eu sei que não posso nada! Como suster, porém, a torrente que brota, que esguicha do meu cérebro livre de distracções por esta quietude de corpo em que estou?
          Em certos momentos, convicto da impossível altura a que pelo pensamento me guindei, fecho as comportas, ponho um tampão neste sonhar louco… Mas de que vale? Daí a nada tudo salta em estilhar; uma nova ideia entra a germinar, a roer… E não sou mais eu quem pensa: é alguém no ar, seguindo a ideia, que se dilata, cresce, atinge proporções descomunais, qual bola de neve rolando do cimo do monte. Entretanto, eu sei, bola de neve ou ideia terão fim idêntico: ou pelo caminho as despedaça um obstáculo imprevisto, ou acabarão seus dias no fundo do precipício onde as forças da natureza ou a realidade da vida as levou…
          Sei isto e no entanto continuo a pensar coisas fantásticas, todo nas nuvens, feliz, de uma felicidade de criança grande, para quem o desmoronar de todo um sonho não é mal maior nem desgraça tão forte que lhe roube a faculdade de pensar, de fantasiar de novo, e sempre mais alto.


                                                        Freamunde, 12 de Fevereiro de 1960
 
João Fernando Correia de Moura (26/0871931 – 18/06/1964)
Autor Freamundense
Prefácio de: José Carlos de Vasconcelos
Edição - Câmara Municipal de Paços de Ferreira
Freamunde, Novembro de 2009

domingo, 14 de outubro de 2012

LEI SECA



(Fotografia do jornal EXPRESSO - ATUAL)

Adicionei hoje à “minha lista de blogues” o LEI SECA, de Pedro Mexia. Não sei porquê só hoje, talvez porque o ambiente natural (para mim) de encontro com o autor, é o Suplemento ACTUAL do jornal EXPRESSO
Pedro Mexia é uma referência no nosso mundo das letras; quem sou eu para falar dele?



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sobre as Falésias de Mármore



           
         Nestas lutas, que descambavam em caça ao homem, emboscadas e crimes de fogo posto, os partidos perderam todo o sentido da medida. Cedo se ficou com a impressão de que eles já mal se consideravam entre si como homens, semeando-se a sua linguagem de palavras ordinariamente só aplicadas aos parasitas, que importa a todo o custo destruir e exterminar pelo fogo. Só sabiam reconhecer o crime no campo oposto, pelo que era entre eles honroso o que no adversário era abjecto. Enquanto cada um considerava os mortos dos outros quanto muito dignos de ser enterrados de noite e às escuras, deviam os do seu campo ser envoltos no lençol de púrpura, devia ressoar o eburnum em sua intenção e subir nos ares a águia, levando até aos deuses a imagem viva de heróis e profetas.
         Em boa verdade, nenhum dos grandes cantores, por mais que os aliciassem a peso de ouro, se dispôs a participar em semelhante profanação. Dirigiram-se então aqueles aos harpistas, que tocam nos bailes das romarias, e aos citaristas cegos que, diante dos triclinia dos lupanares, alegram os embriagados clientes com canções sobre a concha de Vénus e sobre o Hércules glutão. Campeões e bardos eram, pois, dignos uns dos outros.
         É bem sabido, no entanto, como o metro é incorruptível. Os fogos da destruição não alcançam as suas colunas e os seus portais invisíveis. Não há vontade que se imponha à harmonia, e não passam assim de vigaristas que se defraudam a si próprios os que presumiam poder comprar oferendas sacrificiais com a dignidade do eburnum. Assistimos apenas à primeira destas exéquias, e tudo se passou exactamente como tínhamos previsto. O mercenário, de quem se exigia estivesse à altura sublime e ígnea matéria do poema, não tardou a gaguejar e a atrapalhar-se. Mas logo recuperou a fluência servindo-se dos iambos abjectos do ódio e da vingança, que sibilavam no pó. Presenciando este espectáculo, víamos a multidão ostentando as túnicas cor de púrpura que se envergam para o eburnum, e também os magistrados e o clero com as vestes talares. Outrora, quando a águia se elevava nos ares, fazia-se silêncio; agora, deu-se uma explosão de júbilo selvagem.
        

Título original: Auf Den Marmorklippen
Autor: Ernst Jünger (1895 - 1998) - Escritor Alemão
Colecção: Escola de Letras - VEGA
Tradução, prefácio e notas: Rafael Gomes Filipe
2ª edição (1998)
Editor: Assírio Bacelar
Capa: Machado Dias



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Annalia


"Virtude sem prazer não é virtude"



Almeida Garrett
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (Porto, 4 de Fevereiro de 1799 – Lisboa, 9 de Dezembro de 1854)


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Afonso Lopes Vieira

          
           Afonso Lopes Vieira ( Leiria 26/01/1878 - Lisboa 25/01/1946)



Linda Inês
Choram ainda a tua morte escura
Aquelas que chorando a memoraram;
As lágrimas choradas não secaram
Nos saudosos campos da ternura.

Santa entre as santas pela má ventura,
Rainha, mais que todas que reinaram;
Amada, os teus amores não passaram
E és sempre bela e viva e loira e pura.

O Linda, sonha aí, posta em sossego
No teu muymento de alva pedra fina,
Como outrora na Fonte do Mondego.

Dorme, sombra de graça e de saudade,
Colo de Garça, amor, moça menina,
Bem-amada por toda a eternidade!
 
 
 
(In Cancioneiro de Coimbra)


terça-feira, 31 de julho de 2012

Henrique




          Henrique Trindade Coelho - Escritor e diplomata (Lisboa 1885 - Lisboa 1934),
          Teve uma grande actividade jornalística e dirigiu "O Século", Escreveu entre outros
          "Carvões" (poemas) 1907, "Amores Novos" 1911, "Ferro em Brasa" (política) 1913,
          "Prosas e versos de Belchior da Nóbrega" 1920

                                                                    filho de

          José Francisco Trindade Coelho - Escritor e jurista (Mogadouro 1861 - Lisboa 1908)
          Teve uma intensa actividade jornalística. Escreveu entre outros "Os Meus Amores" 1891,
          "O ABC do Povo" 1901, "In Illo Tempore" (memórias) 1902, "Manual Político do Cidadão
          Português" 1905

          (Pretendo apenas dissipar alguma confusão entre pai e filho, já que habitualmente aparecem ambos designados por "Trindade Coelho"

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Santa Bárbara


            Santa Bárbara é protectora contra os relâmpagos e tempestades, e padroeira dos artilheiros, dos mineiros e de todos quantos lidam com o fogo.

João Saraiva (1866 - 1948)

            Daqueles que só atendem ao que é realmente importante quando se vêm aflitos, diz-se que:

"Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja."

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Poeta Lírico


            Um Poeta Lírico


Este período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a sua palavra colorida, poética recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como ele dizia, os terrenos mais áridos; de uma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o Ministério, porém, e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se, sem lógica constitucional, num destes súbitos desabamentos políticos tão comuns na Grécia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas – sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades… Tudo tende para o pó num solo de ruínas…
        Nova lacuna, mergulho obscuro na história de Korriscosso…

       

          Obras de Eça de Queiroz
          CONTOS
          Editora Livros do Brasil
          Lisboa – Fevereiro de 2011


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Luísa Ey, ainda


Dada a escassez de informação sobre D. Luísa Ey, publico a página integral da revista ABC – n.º81 de 26 de Janeiro de 1922



Luísa Ey



                    Luisa Ey, lusófila alemã, amiga de Carolina Michaelis (1851 – 1925) e de Trindade Coelho (1861 – 1908), divulgou em alemão (juntamente com Maria Abeking) os contos do escritor, magistrado e político.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Tísica


Manuel Ribeiro (1878 – 1941)
Escritor, romancista, neo-romântico, um dos da "geração de 70", foi o mais lido em Portugal durante a década de 20 do século passado, e deliberadamente esquecido a partir da década de 40, assunto que motivou investigação e originou tese de doutoramento.


            A tísica


- Eh, ti Chico, bot’ arriba.
            - Anh, grunhiu um vulto enroscado numa das camas do fundo lôbrego da enfermaria.
            - Espichou uma lá em cima, vamos buscar o esquife.
            A morta estava estendida no seu leito de ferro entre as camas muito brancas das outras doentes. Tinham afastado o biombo de que costumavam cercar os agonisantes, e sôbre a mesinha de cabeceira a irmã da caridade improvisára um pequeno altar com seu crucifixo entre dois castiçais acesos. A irmã resava ao lado da morta já vestida e as outras doentes espertadas cochichavam. Errava em toda a enfermaria um ar asfixiante de penitência e de terror, cheio desse mistério impressionanteque a algidez da morte espalha como uma cinza funebre sôbre as almas.
            A irmã Angela, que sabia do meu amor pela pequenina tísica e sempre me afastara dela com a dureza feroz da sua castidade intransigente, tinha-me dito aquela tarde:
            - Entro hoje de ronda, se quizer fique comigo para a velarmos.
            Sabendo que não escaparia dessa noite, a irmã de caridade num intuito verdadeiramente mais cruel de que piedoso, em vez de me afastar, chamara-me para contemplar a agonia dolorosa da pobre rapariga.
            E lembro-me ainda hoje, com terror, dessa lufada tràgica de desespero, de paroxismo febril, que agitou a minha sensibilidade delicada de rapaz, soluçante ao lado da pequena morta, enquanto a irmã Angela numa imobilidade de estatua, espelhava no seu rosto uma intima felicidade satisfeita por vêr mais uma alma largar para o mundo quimérico da sua crença.
            Sempre bôa, carinhosa e docil para o doente, ela via-o partir quando curado, indiferente às suas efusivas manifestações de reconhecimento, ficando-lhe apenas a consciência do cumprimento dum dever imposto.
            Mas era diante da morte que ela se regosijava. Através da sua crença cega, de fanática, eram almas que ela via estrebuchar no exodo final para os anjos e para Deus. Na ânsia de vê-las partir dava-lhes a beijar o crucifixo do seu grande rosário de contas brancas, onde elas se apegassem ao deixarem, suprema libertação, o miserável invólucro, residência temporária no pecado e no sofrimento. A tísica tinha esse rictus de escárneo que mostram as máscaras dos doentes cujas faces emagrecem muito. Os malares salientavam-se-lhe violentamente num tom de marfim velho, apagando-se no circulo roxo das olheiras profundas. Os olhos tinham-se-lhe fechado de per si. Posto que morta havia pouco, tinha adquirido já essa expressão indefinível que a gente vê nos cadáveres que a rigidez inteiriçou, os músculos caídos sem essa tensão que dá a palpitação da vida, as veias deprimidas onde não tumesce já o gorgulho rubrodo sangue, toda a passividade inerte da carne morta, flácida e mole como um trapo.
            O rosto, muito pequeno, não tinha já a figuração quando animado e gazil, e os olhos lhe rejubilavam fulgores vívidos.
            Uma maceração lívida de dor que cresta e padecimento que consome, dava-lhe um ar antigo de noviça que se mumificou nos ascetismos ardentes da fé.
            E luz religiosa das velas bruxeleando ondulações de nave em lausperene, cercando-a duma atmosfera de recolhimento, imprimia-lhe a diafaneidade cerosa das santas, onde como que se vê, como que se palpa essa flutuação do pensamento em que as suas almas andavam vaporizadas.
             Era assim que a irmã da caridade a estava vendo e era assim que eu a via, sugestionado pela convicção imperiosa e dominadora que irradiava da hospitaleira, cuja figura eu temia e respeitava na sua insexualidade entre divina e humana.
            Parecia mais cumprida, ao longo do leito, o busto informe sob o grande roupão deselegante que a irmã na véspera talhára do seu lindo vestido de percal claro.
            Tinham-lhe cortado o cabelo, e a pobrezinha ocultára-me êsse grande desgôsto que a irmã lhe fizera sofrer, metendo-lhe a tesoura na espessa gaforina das suas madeixas louras.

            Havia três meses que havia chegado.
            A entrada na enfermaria daquele bustosinho galante, que não parecia doente, impressionára com um sabor dôce de curiosidade a minha imaginação indiferente à miséria gemida e à dor arrastada por aqueles corredores do hospital.
            Que o hospital era lindo.
            Do lado norte, varandas cintavam o edifício donde a vista descortinava léguas de campina toda semeada de casinhas brancas dos montes.
            Em baixo, as manchas verdes dos jardins, onde as nespereiras alargavam sombras espessas e limoeiros presos às muralhas brancas, como eras, lembravam ermos de retiro conventual.
            Amámos-nos. O que é o amor nessas idades?
            Eram os idílios futeis da meninice. Capelas de rosas brancas que se toucavam na sua cabecita loura, como halos de místicos noivados.

            Tinham chegado os moços com o esquife.
            Um dêles, aconchegando as sandálias da morta, pegou-lhe rudemente nos pés. Instintivamente, repeli o outro e tomei-a com todo o cuidado por debaixo dos braços, encostando-lhe a cabeça contra o meu peito. No esforço que fizemos ao levantá-la, a cabeça pendeu-lhe para trás, e através das pálpebras , contra a luz, eu vi num fiosito claro, como que um resto de vida, as córneas embaciadas dos seus olhos, onde se não esmaltavam já as radiosas alucinações da febre.
            Colocámo-la como uma grande pétala branca dentro do esquife. Cobrimo-la com o pano negro de veludo. Depois os homens pegando nos braços da tumba puzeram-se a caminho, ao mesmo tempo que eu sentia em todo o meu ser êsse despedaçamento estrangulador das separações. A irmã Angelica colocára-se ao lado do féretro com uma vela acesa. E eu seguia os dois homens no seu passo rítmico ao longo dos corredores, vendo as suas sombras amplificarem-se nas paredes alvas. E sentia uma angustia desesperadora ao pensar que não era já nada naquele cadáver que êles levavam, que era agora deles, e uma espécie de ciume louco e de raiva impotente confrangia o meu coração diante daquele egoismo, da indiferença daquelas pequeninas mãos que se tinham erguido para mim em todas as suas crises de sofrimento da indolência  do seu ser que fremira a tão delicadas sensibilidades e onde eu ainda via a condensação de todos os meus desejos e a alma que eu amara no seu corpo.
            Era a materialidade do meu amor que eu ali procurava, a docilidade do seu espírito convergindo para mim em todas as suas voluntariedades.
            Nas outras enfermarias percebiam-se êsses gemidos abafados da insónia, quando a alma erra pelas alucinações trágicas de nevrose. Sentia-se a agitação dos corpos minados pela doença, que não se revoltam e já não gritam, lassos, envolvendo os nervos numa bainha de indiferença.
            Descemos a escadaria do andar nobre, demos a volta do claustro para onde abriam arcadas que recortavam no alto sectores de céu azul picado de estrêlas e desembocamos enfim no jardim todo cheio de sombra sob a grande solidão da noite fria.
            O depósito era ao fundo num dos recantos do jardim, encostado às paredes da capela do hospital.
            Um dos moços abriu uma cancela de ferro e depois a porta, saindo lá de dentro um bafio a cêra queimada e ar viciado. Sôbre uma banca, envolto numa toalha de linho, a tristeza lívida dum Cristo olhando para a terra com o desalento dos grandes desditosos, ao lado, a mesa das autópsias, esquifes empilhados e um rumor surdo dos limoeiros rapando nas rótulas das janelas. Cá fora a scintilação trémula das estrelas e o silêncio enchendo o grande vácuo da noite…

Manuel Ribeiro

Publicado em:
ABC – Lisboa, 16 de Novembro de 1922
Ano III – n.º 122